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Eu ia escrever mais um post na série Hip Hop 2.0, mas entretanto deu-me mais vontade de abordar o tema descrito no tópico, ou seja, como é que um MC se consegue tornar no maior douchebag de toda a história do rap.

Para vos dar um pouco de contexto, o Lord Finesse é aquilo que se pode considerar um dinossauro do rap. Produziu para grandes nomes como Notorious B.I.G e Big L, colaborou com Fatboy Slim e lançou três álbuns, o último dos quais, The Awakening, foi extremamente bem recebido em 1995.

Recentemente, um new comer chamado Mac Miller (que já praticamente toda a gente conhece), pegou no instrumental do hit "Hip 2 Da Game" do Lord Finesse e utilizou-o para uma mixtape lançada em conjunto com o DJ Jazzy Jeff.

Nada de novo, right? Desde a sua génese que os artistas de Hip Hop lançam mixtapes, de graça ou a pagantes, em que utilizam instrumentais de outros artistas para darem uma reviravolta à música e mostrarem o que valem sobre uma base que já é conhecida. O Mac Miller, tal como muitos outros artistas famosos e desconhecidos, catapultou-se do underground através da elaboração de mixtapes - várias - que distribuiu de graça na internet. Assim de repente, consigo-me lembrar dos seguintes artistas cujo primeiro ou último trabalho que ouvi foram mixtapes: Saigon, Royce da 5''9', Asher Roth, Prodigy, Raekwon, Nokas, Capicua, Mundo, ...(who am I kidding, todos os MCs da Tuga com mais de 6 anos de casa começaram nas mixtapes do Bomberjack, Cruzfader, 30 Paus, Kronic e afins!)... enfim. Para uma pequena amostra de quantas mixtapes são lançadas hoje em dia, ver por exemplo a secção de Mixtapes no HipHopDX. Vêem ali o Jadakiss, NORE, Stalley e Slum Village logo na primeira página? E também o próprio Mac Miller, claro.

Para iniciantes e veteranos, tanto no inicio do Hip Hop como agora, as mixtapes, os remixes e a re-utilização de instrumentais sempre foram uma parte estruturante da cultura Hip Hop. Estiveram lá no início quando era difícil arranjar os beats e estão cá agora como forma de manter os artistas relevantes e presentes no dia-a-dia dos ouvintes, para quem um álbum de 2 em 2 anos já não chega. É uma forma de promoção para quem é desconhecido e uma forma de exercitar os skills para quem já tem carreira. É algo tão intrínseco ao Hip Hop como o beatbox, escrever as letras em rimas, fazer scratch ou dizer "yo".

Posto isto, voltemos ao Lord Finesse.

Segundo o site Courthouse News Service, após o Mac Miller ter lançado a música "Kool Aid & Frozen Pizza", com uma letra completamente diferente mas usando o mesmo instrumental de "Hip 2 Da Game" (como é NORMAL desde o início dos raps!), o Lord Finesse decidiu processá-lo por plágio no valor de 10 milhões USD. Note-se: isto tendo em conta que o Mac Miller lançou o som numa mixtape que foi distribuída gratuitamente, pelo que ele não fez um único cêntimo com esta música.

Ora se isto não é um comportamento inaceitável no seio do movimento que tem a história que tem, não sei o que será.

Citando o site,

"Finesse says Miller has profited from the unauthorized use of his song." e " The $10 million lawsuit alleges copyright infringement, unfair competition, unjust enrichment, interference, deceptive trade practices, and a number of related state law claims." [um à parte: unfair competition? Unjust enrichment? Mas o Mac nem vendeu a mixtape!]

Ah e tal mas ele tem o direito de defender o seu trabalho, mesmo estando a espezinhar 30 anos de cultura Hip Hop (podem vocês dizer, porque eu cá continuo a ser anti-copyright como sempre). Okay, tudo bem. Então, pergunto-me se ele pagou a todos os artistas a quem roubou samples para produzir as suas músicas? Claro que não. Mas também ele lucrou e muito com o uso não autorizado da música de outras pessoas, violando copyrights, enriquecendo injustamente e tudo o resto de que ele acusa o Mac Miller. É muita falta de carácter. Tal como os artistas que se queixam dos downloads os fazem aos montes, também os artistas que se escondem atrás do copyright têm a alma a apodrecer em hipocrisia. Qualquer Hiphoppa que se preze, mesmo não curtindo o trabalho do Mac Miller, neste caso não pode ter quaisquer dúvidas de que lado deve ficar.

Mas se acham que o Lord Finesse quer é dinheiro e está a processar o Mac Miller simplesmente porque não tem talento para dar mais ao Hip Hop, enganam-se muito. É ego, mesmo. E o Lord Finesse não se fica por aqui.

Dan Bull, o rapper mais activista das internets, sempre atento e bem ao seu estilo, fez uma música, utilizando o mesmo instrumental ("Hip 2 da Game"), a criticar o escandaloso abuso das leis de copyright por parte do Lord Finesse e a defender o Mac Miller. Nessa música, o Dan Bull explica como o próprio Lord Finesse samplou a música de outro artista - "Dream of You", de Oscar Peterson Trio, incorrendo ele próprio no comportamento pelo qual está a processar o Mac Miller.

Que faz Finesse? Denuncia o vídeo ao youtube por copyright infringement, bloqueando a conta do Dan Bull. Tive a enorme sorte de ainda ir a tempo de ver o vídeo e devo dizer que é uma pena ter sido reportado porque explicava, em forma de música e com grande criatividade, toda esta situação.

Isto significa que a lei de copyright já está a ser usada não só de forma abusiva mas também para, inclusivamente, censurar vozes discordantes.

Vendo-se censurado, o próprio Dan Bull decidiu fazer outro vídeo, onde explica o que lhe aconteceu e como o Lord Finesse o censurou só a ele, quando no youtube continuam muitos outros vídeos fazendo "uso não autorizado" dos trabalhos dele. Vale muito a pena ver, até porque o Dan Bull faz uma pequena review da história da reutilização de material existente no Hip Hop, incluindo as mixtapes:



No final do vídeo, o Dan Bull incentiva toda a gente a fazer o seu próprio vídeo de crítica sobre este assunto, algo que já começou a acontecer: Oscar Peterson Thing.

Cada um faz o juízo que bem entender desta situação, pessoalmente penso que é extremamente triste da parte de um cat tão oldschool ter uma atitude vergonhosa destas e é um pouco assustador ver até onde é que a lei de copyright pode ir nas mãos de quem pretende censurar. Por outro lado, admiro imenso pessoas como o Dan Bull que, mesmo tendo medo das possíveis consequências, não se calam e lutam pelos seus direitos, incentivando os outros a fazer o mesmo.

Boa sorte para o Mac Miller. Bonito, bonito, era se o Lord Finesse ganhasse o processo, ser processado a seguir pelo Oscar Peterson. Poetic Justice!

Raps United Nations Portugal

O Blastah Beatz e o Billy Danze de M.O.P. estão neste momento a organizar uma Mixtape de talento nacional, com o propósito de dar uma visibilidade aos artistas nacionais que, de outra forma, não teriam - é esse o propósito desta RUN Portugal, a ser lançada dia 25 de Outubro.

Para esta mixtape, Billy Danze e Blastah Beatz pedem essencialmente sons já gravados para os quais se farão posterior mixagem e masterização. Caso não saibam, produtores são também bem vindos no projecto!

Os interessados deverão inscrever-se, até dia 28 de Setembro, para: portugal.run@gmail.com

E enviar a seguinte informação:

Nome de artista:
Email:
Telefone:
Website:
Twitter:
Facebook:
Nome da musica:


O custo de participação no projecto é de 120 €, valor este que foi reduzido para ter em consideração as dificuldades financeiras pelas quais toda a gente passa neste momento. No entanto, representa um investimento de longo prazo num projecto que tratá uma visibilidade que de outra forma talvez fosse muito mais difícil (e caro) atingir.

Being gay is okay

Interrompo a minha série de posts TL;DR para vos dar a conhecer este video brutal que o Murs lançou ontem:



Acho que este post faz especial sentido depois do meu post de ontem sobre o Dan Bull. Não é só com músicas sobre jogos de computador e coisas de geek que se conquista a internet, mas sim com, passo a redundância, genuina genuinidade. A internet nisso é implacável: se o teu som não soa genuino, se não vem do fundo da tua alma e daquilo em que tu profundamente acreditas, então podes tirar o cavalinho da chuva.

No caso do Murs, acho que a música fala por si. No lançamento de "Animal Style", Murs disse o seguinte no facebook:



Isto na semana depois do Frank Ocean (OFWGKTA, crew do Tyler, The Creator) publicar uma carta em que descreve o seu primeiro amor.

Aqui fica o video do Jay Smooth sobre o assunto, que gostei muito de ver (e bem vindo de volta aos videos, Jay Smooth!)

Ill Doctrine: Frank Ocean's Independence Day from ANIMALNewYork.com on Vimeo.

Hip Hop 2.0 - Parte 2 - Dan Bull

No post anterior escrevi sobre como o mundo da música mudou de um produto de massas para um produto de segmentos e subsegmentos. Abordei também a forma como os artistas têm de mudar a sua linha de orientação no lançamento de discos de "como obrigo os meus ouvintes a pagar" para "o que é que posso oferecer aos meus ouvintes que os persuada a comprar". E, mais importante para este post, referi por alto que o perfil do consumidor mudou de um ouvinte que ouve poucos artistas mas os segue com afinco para um ouvinte que ouve toneladas de música por mês e que pensa muito bem onde quer gastar o seu dinheiro antes de o gastar.

Um artista de Hip Hop hoje em dia tem de competir de forma muito mais aguerrida para captar a atenção do ouvinte, quanto mais para o convencer a comprar a sua música. Alguns artistas acham que a melhor estratégia é apostar na consciência pesada dos ouvintes, acusando-os de não apoiar o Hip Hop e tentando meter-lhes medo através de ameaças de que deixam de fazer música e que o Hip Hop vai acabar se não lhes comprarem CDs. Incrivelmente, os artistas que vejo a fazer isso são aqueles que já têm algum rendimento do rap, o que não deixa de ser irónico.

Assim de repente, o exemplo mais recente deste tipo de palermice foi protagonizado Bumpy Knuckles na faixa We Are At War. Notem que o link é para o Grooveshark e não para o youtube porque só no Grooveshark é que encontrei a versão com o discursozito de introdução do Bumpy a queixar-se que o rap underground perdeu rios e rios de dinheiro nos últimos 10 a 15 anos. E a culpa é toda dos fãs, que querem ouvir a música mas não querem pagar por ela. Depois, entra o beat e Bumpy escreve toda uma letra de wackalhice onde, no meio de egotrip nada relacionado com o tema, diz coisas como:

'Cause of all this free shit it's time to stop it
I used to beat a bootlegger to death
Now I got to send a legal letter, I think the fans ought to treat me better


Pobrezinho do Bumpy, que já não pode espancar os bootleggers. Agora tem de escrever cartas. E se já ouviram o Kolexxxion já sabem que escrever não é bem a cena dele.

E enquanto rappers como o Bumpy acham que a solução é fazer músicas cheias de raiva contra os fãs (o que dá vontade de rir a quem sacou o álbum e irrita quem o comprou), há outros artistas que já acordaram para a vida e percebem que o truque não está em ser uma little whiney bitch mas sim em ser tão relevante e interessante que não dá para ignorar.

E um desses artistas chama-se...

Parte 2 - Dan Bull

O Dan Bull é o meu herói por muitos motivos. Dan Bull é um artista Hip Hop britânico e faz um estilo de rap mais flexível - tem um flow mais melodioso, não rima só em beats de Hip Hop per se e escreve sobre os mais variados assuntos. Dan Bull não se pode meter em nenhuma caixa pré-definida.

Aquilo que me chamou à atenção no Dan Bull foi, antes de mais, a sua postura de grande compreensão pela forma como os direitos de autor prejudicam mais a música do que a ajudam. Dan Bull tem uma postura verdadeiramente militante no que diz respeito à promoção de uma nova forma de compreender o mercado da música online. Como ele diz na primeira música que ouvi dele, uma carta aberta endereçada à cantora Lily Allen, num instrumental dela:

"Downloads don't equate to sales, so taking them away won't make me pay up - just procludes me from sending your tunes to my friends, so we all lose in the end. You lose potential fans and we lose respect for the fact that you're desperate for cash".


Logo à partida, é uma postura um pouco diferente da do Bumpy, não? Eu diria que, num mundo onde os rappers não têm realmente forma de obrigar as pessoas a pagar, uma postura destas é capaz de colher mais compras voluntárias do que a do Bumpy.

Mas voltando ainda ao factor "impossível de ignorar" - o Dan Bull é tão interventivo e tão proactivo na música que faz que o seu alcance vai muito, mas mesmo muito além do círculo do Hip Hop. Este MC fez inúmeras músicas no estilo "carta aberta" sobre os mais variados temas e endereçadas às mais variadas personalidades, sobre jogos populares (Skyrim, Assassin's Creed, Minecraft, Mass Effect, Battlefield, Diablo 3) - e neste departamento, fez até uma review em rap do GTA V(!) - sobre o redes sociais (Facebook, Twitter) sobre as tentativas de censura da internet (BPI, ACTA), política, mais política, enfim! You name it, provavelmente o Dan Bull já fez uma música sobre isso.

E não pensem que o Dan Bull faz estas músicas só para se tornar relevante. Não - vocês ouvem as músicas e, se já jogaram os jogos, acompanharam os debates políticos ou usaram as redes sociais, vêm que ele domina perfeitamente os assuntos que aborda. Não há palha naquelas letras, e os instrumentais são sempre muito bem escolhidos e adaptados ao tema.

Ora bem, dito isto, onde é que o Dan Bull vai buscar o dinheiro, no meio de tanta música de graça?!

E aqui é que este post fica mesmo interessante.

Quando descobri o Dan Bull, ele tinha lançado apenas um álbum, que estava disponível para download gratuito, com opção de donativo através do paypal para quem quisesse contribuir.

Por esta altura, o Dan Bull já lançou o seu segundo álbum, com a opção de fazer download totalmente de graça ou comprar a versão oficial (em digital) no iTunes ou no 7digital.

Adicionalmente, o Dan Bull lançou aos seus fãs o desafio de o elevar ao topo dos charts, sem recorrer a majors nem promotoras nem coisa nenhuma. Para isso, lançou o single "Sharing is Caring" nas redes sociais e na internet totalmente de graça e quis ver se, mesmo distribuindo a música sem qualquer custo, ela conseguia chegar aos charts. Através de um esforço motivacional dos seus fãs (que o Dan Bull incentivou através do Twitter e do Facebook) e com uma ajudinha do The Pirate Bay (façam find por "The Pirate Bay proudly promotes Dan Bull!"), Dan Bull conseguiu chegar ao 124º lugar na geral, 9º lugar nos charts inde e ao 35º lugar no top RnB (ver aqui). Notem que estes charts têm por base vendas e não votos ou downloads.

Mesmo assim, com tanta coisa à escolha, os fãs podem simplesmente fazer um donativo a troco de nada. E se não gostarem do Paypal? Não há qualquer problema, podem usar o Bitcoin ou o Flattr. Ou se querem mesmo qualquer coisita para mostrar, Dan Bull providencia também a hipótese dos fãs comprarem merchandising. Opções para todos os gostos!

Mas o Dan Bull não se fica por aqui.

Ora perguntam-se vocês: mas o Dan Bull não vende CDs físicos? Pelo menos do último álbum?

E eu respondo: claro que sim.

Vai é vender só UMA cópia do CD. Por £1,000,000.

Diz Dan Bull "That's right - I'm compensating for an age without scarcity by artificially inducing some scarcity of my own. Seriously, I'm selling this disc for £1,000,000."

E acrescenta: "God, I've just realised something. Buy the digital version instead of the CD copy, and you'll be saving about £999,995! How can you possibly turn down an offer like that?"

Ainda não estão convencidos que é por aqui que é o futuro? Então vejamos só mais uma iniciativa do Dan Bull (prometo que é a última), na sua infinita jornada à descoberta do modelo de negócio que melhor funciona para ele.

Dan Bull colocou-se a si próprio no ebay, prometendo fornecer, à licitação mais alta, o seguinte:

One song on any topic of your choice, written, performed and produced by Dan Bull. Duration: 2.30 - 3.30 approx. I will liaise with you via e-mail if there any specific details you wish to include in the song. You will be free to use and redistribute this song in any way you wish, however I reserve the right to do the same. The song will be delivered to you in MP3 format within 14 days of the winning bid.

Get bidding now, because this may never happen again. Love from Dan :) x


A licitação fechou nos £3,037.

Hip Hop 2.0 - Parte 1 - Murs

Na semana passada fiz um post sobre a estratégia de dois artistas - Murs e Pródigo - no lançamento dos seus mais recentes trabalhos. Ainda que fizesse essa comparação, o objectivo final do post foi mostrar o meu desagrado com a estratégia do Pródigo, dado que me considerava prejudicada por, por um lado, ter a informação de que o álbum seria lançado gratuitamente tendo eu já feito o pre-order (informação que se encontrava errada) e, por outro, a estratégia de divulgação prejudicar quem, como eu, fez pre-order mais cedo (tive direito a apenas 3 músicas enquanto quem fez o pre-order mais tarde teve direito a 6).

Entretanto, o próprio Pródigo entrou em contacto comigo numa perspectiva de compreensão e resolução do problema, o que me levou a reflectir sobre o tema como os artistas de Hip Hop entendem o mercado de música online e lidam com ele. Em resultado dessa reflexão, decidi apagar o post anterior e fazer outro, com uma perspectiva mais construtiva.

Por todo o lado se debate se a transição para a internet representa o fim da música como a conhecemos. A pirataria, os mp3, a alteração do comportamento dos ouvintes... Será racional para um artista esperar qualquer tipo de remuneração pela sua música?

Sejamos honestos: o Hip Hop nunca foi uma galinha dos ovos de ouro, a não ser que estejamos a falar da mão cheia de MCs que fazem músicas à medida das MTVs (e, hoje em dia, isso envolve mais autotune, Rihanna e música electro do que se atribui ao estilo Hip Hop). A grande maioria dos artistas Hip Hop não faz música para as massas, mas sim para um segmento em específico: para o segmento Hip Hop. E dentro do segmento Hip Hop há vários subsegmentos, correspondentes a vários estilos de rap, pelo que há poucos artistas que consigam ser ouvidos sequer pela totalidade do segmento Hip Hop, quanto mais pelas "massas".

Portanto, só por aí, é pouco realista que um artista de Hip Hop, especialmente em Portugal, tenha expectativas de fazer rios de dinheiro com a sua música.

Depois, temos o outro lado da equação: as pessoas estão cada vez mais habituadas à facilidade de sacar a música no exacto momento em que a querem ouvir, sem custos associados. As únicas pessoas que ainda compram música são as que fazem colecção de CDs ou vinis ou simplesmente querem apoiar o artista. Aliás, testemunhei ao longo dos últimos anos os próprios artistas a admitirem que não têm possibilidades económicas de comprar toda a música que ouvem, a admitir que fazem download de imensa música, mas que "acham mal" e que "devia haver uma maneira de proibir os downloads ilegais". Isto apesar de eles próprios os fazerem. E de eles próprios admitirem que não teriam forma de comprar toda a música que ouvem. Não tenho a certeza se devo caracterizar esta postura como muito ingénua ou simplesmente hipócrita.

Perante este panorama, será possível ter algum tipo de rendimento com a música?

A resposta a esta pergunta depende simplesmente da capacidade que cada artista tem de compreender como funciona o marketing online.

Ainda vejo muitos artistas que, chegado o momento de lançar o álbum, se perguntam a si próprios: "como é que posso obrigar as pessoas a comprar o meu álbum?" E é por essa premissa que a maioria dos artistas alinha a sua estratégia de lançamento. Estes artistas ainda estão presos a uma época em que o maior desafio no lançamento de um álbum era dar a conhecer às pessoas que o álbum tinha saído. O esforço era divulgar, porque depois de divulgado, o álbum era certamente vendido, não só porque o mercado estava fora da internet mas também porque havia tanta escassez deste tipo de música que o segmento Hip Hop comprava tudo o que aparecesse.

Hoje em dia, as coisas já não são assim. A música já se transferiu definitivamente para o virtual e a oferta é imensa. É na internet que está toda a comunidade que se interessa pelo produto em questão: os artistas, os compradores, os ouvintes, os divulgadores. Se as pessoas preferissem comprar música em rodelas de plástico não havia tanta gente a fazer downloads - haveria muito mais gente a piratear música em cds. Então, porquê insistir em disponibilizar música em cds, sabendo que não é isso que a maioria do mercado quer?

Aquilo que os artistas têm de perceber é que têm de investir tempo a tentar compreender o seu mercado. Fazer edições em vinil não faz sentido para todos os artistas. Fazer edições em CD poderá fazer algum sentido - então é preciso entender quantas pessoas estão interessadas e em que circunstâncias. Querem apenas o cd? Querem cds com as letras? Querem artwork? Estarão mais disponíveis para comprar cds se eles vierem com direito a uma entrada num concerto? E fará mais sentido editar 200 cds a 7 euros ou editar 50 cds a 20 euros, na perspectiva de item de colecção?

Mas tudo isso se refere a uma fatia marginal do mercado. Onde deve estar a grande fatia do esforço de compreensão é em compreender o que é que a grande fatia dos compradores quer. E a maioria dos compradores não quer, definitivamente, ser obrigado a comprar música. O que a maioria dos compradores quer é ser persuadido a comprá-la. Não só não faz sentido tentar obrigar os ouvintes a comprar música - evidentemente que qualquer tentativa desse género sai frustrada porque a pirataria permite a qualquer pessoa contornar qualquer tentativa de coerção ao pagamento - como, na verdade, resulta numa incrível perda de oportunidade de dar às pessoas algo pelo qual elas queiram realmente dar dinheiro.

Vejamos como alguns artistas optaram por lidar com esta nova dinâmica no mercado musical.

Parte 1 - Murs

Já tinha falado no post anterior, mas vou explicar melhor.

O Murs tinha um projecto chamado "The Curse of the Merch Girl". Este projecto consiste numa colectânea de 10 músicas da autoria de Murs em conjunto com uma banda desenhada da autoria de Josh Blaylock. Murs e Blaylock começaram a trabalhar neste projecto há mais de dois anos e precisavam de financiamento para o concretizar. Assim, recorreram à plataforma Kickstarter e pediram aos fãs para os ajudarem a levar The Curse of The Merch Girl a bom porto.

Na página do Kickstarter, Murs e Blaydock dizem explicitamente qual é a finalidade deste financiamento: "We need to finish the production on the album, print the comic and with your help, produce a music video which will debut publicly during Comic-Con in San Diego in July!"

O objectivo definido pelos dois artistas foi de 25.000 USD. Dia 22 de Março, 605 pessoas tinham investido 32,099 USD. A quantia a investir estava dividida por escalões e a cada escalão correspondia determinado benefício. Exemplificando:

- 5 USD or more: Our undying love and a shoutout on twitter.

- 10 USD or more: BUTTON PACKS: 4 buttons featuring Yumi and three other characters from the comic, plus a Twitter shout-out.

- (a minha selecção) 15 USD or more: DIGITAL PACK: An MP3 download of 10 new Murs songs & PDF of the 124 page graphic novel two weeks before the public. You also get a shout out on twitter for being an awesome human.

- 25 USD or more: PHYSICAL & DIGITAL PACK: A physical CD with all 10 songs, a copy of the hardcover graphic novel with one of the three music download cards randomly inserted, the digital songs and PDF of the book, a .MOV file of the music video two weeks before it goes live on the public websites, and a Twitter shout-out. [International please add $10 for shipping]

- 40 USD or more: ALL PLEDGES OVER $40 ARE SIGNED BY MURS & JOSH.... PRINT, BOOK, DOWNLOAD CARD & CD: An exclusive 11x17 print of the download card art of your choice, the physical hardcover book (CD, book & print signed) with the matching album card, MP3 downloads of all 10 songs, PDF download of the graphic novel & a downloadable .MOV file of the music video two weeks before the public, a special thank-you in the book, and of course a Twitter hallelujah. [International please add $10 for shipping]

(....)

- 100 USD or more: HOODIE, SHIRT, BOOK, DOWNLOAD CARD & CD: An exclusive, limited edition hoodie custom made for the Kickstarter campaign featuring art from the book, the CD, the physical hardcover book (CD & book signed) with the album card of your choice, a t-shirt (guys or girls) featuring the image, MP3s of all 10 songs, a PDF of the graphic novel and a downloadable .MOV file of the music video two weeks before the public, a special thank you in the book, a copy of Murs' last album Love & Rockets, and some Twitter love. [International please add $15 for shipping]

(...)

- 500 USD or more: THE DISTRO PACK (A): Are you a retailer or distributor who'd like to carry Curse of the Merch Girl? We will send you 40 copies of the book & CD, with alternating, allocated download cards, shrink wrapped together plus two promotional display posters for your store. You will get them at least a month before any other retailers are allowed to order remaining copies left from the pressing. Please send info / links to verify your business & you pay shipping. The other rewards are exclusive to individual pledgers.

(...)

- 2,500 USD or more: YOU ARE A SUPERSTAR PACK. Everything in the the EVERYTHING PACK. PLUS at the Comic-Con party you will get to jump on stage and perform your favorite Murs song with the man himself!!! After which we will edit and post on youtube and you will be on you way to STARDOM!

Etc.

Dei-me ao trabalho de fazer um gráfico com o número de pessoas que escolheu cada um destes escalões:




Nota: a soma do total de supporters não me deu 605, mas sim 589 pelo que deve ter havido algumas desistências. No entanto, a diferença não é significativa.

Outras contas interessantes que estive a fazer: Os primeiros 5 escalões representaram 69,3% das pessoas que contribuiram e 36% do valor investido. Os 5 escalões seguintes representaram 29% das pessoas que investiram e 49,7% do valor investido. Os restantes escalões representam apenas 8 pessoas e 4.000 e pouco USD.

Qual é a grande conclusão que se pode tirar daqui?

Este esquema de coisas permite recompensar todos: aqueles que podem pagar muito e aqueles que podem pagar pouco. Todos têm algum tipo de benefício. Os que pagam mais são mais recompensados, evidentemente. E os que pagam antes (todos estes) têm o benefício de receber o álbum e o CD ainda antes de estes estarem disponíveis nas lojas.

Podemos fazer um pequeno exercício com estes valores. Imaginemos que o Murs, em vez de crowdfunding, tinha optado por investir ele o dinheiro e vender o álbum e o CD no esquema habitual. Vamos assumir que estes compradores todos estavam disponíveis para comprar o trabalho após este ter saído. E vamos assumir que o Murs tinha a claridade mental de estabelecer dois preços, por exemplo, 15 USD para o digital pack e 25 USD para o físico.

Vejamos quanto é que ele teria lucrado com as mesmas pessoas que investiram no seu projecto.

As pessoas que pagaram apenas 5 ou 10 USD não teriam comprado o álbum (visto que não tiveram dinheiro suficiente para pagar 15 ou 25 dólares que era quanto custava o digipack e o pack físico). 88 pessoas teriam comprado o digipack, tal como fizeram aqui, a 15 dólares, dando um total de 1.320 dólares. E as restantes teriam comprado o pack físico a 25 dólares, dando um total de 13.470 dólares. No total, em vez de 32.099 USD (ou 29.702 pelas minhas contas), Murs teria recebido 13.470 dólares. A diferença é bastante grande. Já para não falar de que ninguém dá 1.000 dólares por um álbum, mesmo que venha com banda desenhada e tudo. No entanto, claramente que alguém dá 1.000 dólares para apoiar o seu artista favorito e receber montes de coisas fixes, incluindo t-shirts, hoodies, o seu nome referenciado na BD, entre muitas outras coisas.

Daqui podemos depreender que o crowdfunding é uma excelente maneira de personalizar o tipo de oferta e de proporcionar às pessoas value for money: sim, elas pagam, mas o artista também as recompensa por isso. You go, Murs.

No próximo post vou falar de Dan Bull e de como a sua postura na música o levou ao top dos charts britânicos apenas através de social media.

Two of a kind - Cage e Shia LaBeouf



Não espanta que o LaBeouf se tenha fixado no Cage. A distância que separa fingir ser-se o seu próprio agente e estar internado num hospital psiquiátrico é, afinal de contas, pequena.

Entrevista a Immortal Technique

Já está online a minha entrevista a Immortal Technique, por ocasião da sua vinda ao Hard Club.

Foi, sem qualquer dúvida, um grande privilégio entrevistá-lo e só tive pena de não poder debater algumas ideias com ele. Muito obrigada à Rita G Bookings pela oportunidade e à Yellow Stripe pela orgnização do evento.

English version - Interview with Immortal Technique Collapse )

Aesop Rock - Zero Dark Thirty

Aesop Rock cultiva mais um pouco do seu aspecto de sem abrigo e aproveita para fazer o videoclip do seu próximo álbum, "Skelethon".



Já agora, convido-vos a visitar o site do Aesop Rock. É giro passar o rato por cima do título, mas menos giro se tivermos em conta os dois episódios do Skelethon disponíveis no site.

Será que vão fazer posters da capa do Skelethon? Isso é que era.

Nokas - Manutenção



Nokas (a.k.a. Infinito)
Mixtape Manutenção
2009


Nokas, membro efectivo do grupo nortenho LCR (a par com Berna e D.One), lançou em 2009 a mixtape Manutenção. Por algum motivo, esta mixtape passou-me ao lado até muito recentemente, pelo que mal pude acreditar quando me apercebi que este trabalho já tinha quase 3 anos.

"Manutenção" é um autêntico blast from the past. Não quero com isto dizer que o Nokas soa igual a quando começou. Nada disso. O que quero dizer é que esta mixtape transpira aquele sentimento de qualquer hiphoppa quando punha os pés nos concertos do antigo Hard Club, quando este ainda estava do outro lado do rio. Aquela sensação de agarrar nas mãos um CD do qual só se tinham feito 500 cópias. Aquele conhecimento de que fazíamos parte de algo muito pequeno mas, ao mesmo tempo, muito maior do que nós. Algo único e especial.

É que nas suas letras Nokas ressuscita o feeling de se ser hiphoppa, os valores e ideais que hoje em dia parecem completamente perdidos. Mas não para o Nokas. Para o Nokas, o tempo passa, o skill actualiza-se e evolui mas os valores e o sentimento permanencem.

A primeira coisa de que nos apercebemos quando pômos esta mixtape a tocar é que está repleta de instrumentais muito bem escolhidos. E todos eles são tão adequados ao timbre e flow do Nokas que, não fosse já os conhecermos das músicas originais, poderíamos muito bem pensar que tinham sido feitos de propósito para o MC, tal é o à-vontade dele nos beats. E a segunda coisa que nos vem à cabeça no fim da primeira audição é: porque é que o Nokas só fez 6 músicas?!

Bem, uma coisa é certa, o facto de serem apenas 6 faixas ajuda-nos a escutar e interiorizar muito melhor as letras, visto que em vez de ouvirmos uma única vez 15 tracks, ouvimos três vezes estas 6.

1 - Pacto

A uma média de pelo menos uma música por cada MC sobre o que o Hip Hop significa para si, e estimando cerca de 500 MCs tugas que fazem ou já fizeram rap, podemos supor a existência de pelo menos 500 músicas sobre o mesmo assunto. Seria de esperar que hoje em dia não houvesse nada a acrescentar, e na maioria dos casos, isso é verdade. Mas o que Nokas nos traz nesta "Pacto" é mais do que isso: é uma mistura do recall da sua postura no rap com crítica à falta de raízes da maioria dos rappers de hoje em dia. Que melhor escolha para comunicar esta mensagem do que um beat do Pete Rock? Não há como não concordar com tudo o que ele diz, pois quem está cá há mais do que meia dúzia de meses sabe que "Ninguém me tira isto, aconteça o que acontecer / declara o meu óbito no dia em que deixar de escrever". E para quem está cá há uma mão cheia de anos, esta resume todas as nossas frustrações: "Acordem e procurem uma mensagem relevante / não sintam orgulho quando se empenham em ser ignorantes". Quantas vezes já ouviram new comers a dizer, cheios de orgulho, "eu cá só ouço rap da nova escola"? Não admira que tenhamos uma nova geração de rappers convencida que o mais importante numa música é ter multies. Nokas diz, e bem, que é "rápido a cuspir, mas lento a redigir / procuro sempre a melhor frase para me poder exprimir". Depressa e bem, não há quem.

2 - Espiritualidade e Êxodo

É com 9th Wonder que Nokas se aventura para dentro de si próprio, tocando ao de leve mas com precisão em várias temáticas que se consideram fundamentais para a formação de uma alma humana. "Cultivo valores sem dogmas e morais sem religião", "Bíblia? Eu tenho a minha, sem serpentes nem maçãs / sem árvores amaldiçoadas ou mulheres condenadas / auto-didacta, a vida é que me indica as coordenadas" são algumas das passagens em que Nokas explica a diferença entre espiritualidade e religião. Muitas vezes os valores seculares são desprezados por se considerar que só a religião pode ser a nossa bússula para o que é certo e errado, bom ou mau, desejável ou censurável. Mas isso não é verdade, e já foi argumentado várias vezes (se tiverem curiosidade, vejam este vídeo de Sam Harris - Science Can Answer Moral Questions). E mesmo no capítulo da introspecção e crescimento pessoal, mais uma vez existem outros caminhos para estabelecer a ligação entre o indivíduo e o divino "Preciso de mais árvores e de menos pessoas / menos conversas ocas e mais pensamentos profundos como lagoas". E para terminar em grande, Nokas lembra-nos que "sempre foi assim" não é justificação suficiente para os nossos comportamentos e crenças actuais. "Renascem em mim alguns instintos adormecidos / que colocam em questão rotinas e hábitos citadinos / caminhos pré-definidos por valores estabelecidos / convenções sociais de pais e amigos". Hábito e tradição podem explicar porque é que somos como somos, mas não pode servir de desculpa para não mudarmos.

3 - Não preciso
À terceira faixa chega a vez de Statik Selectah tomar o seu lugar nos instrumentais e Nokas debruça-se sobre o caminho que pretende tomar no Hip Hop. Começa logo por estabelecer que a escrita é a única coisa de que precisa e que se fodam os álbuns, os concertos e o movimento. E à medida que a música avança, começamos a perceber porquê - as intrigas e as deturpações consumiram o Hip Hop a partir de dentro: "MCs têm beefs, MCs fazem disses / estes MCs precisam é de uns kisses" (não podia concordar mais), "MCs não conhecem músicas nem letras / conhecem-te de comentários que só lhes metem merda nas cabeças". E isto acontece cada vez mais porque "MCs querem competição, não querem criação / e tornam-se todos iguais no meio da confusão". A partir do momento em que os MCs se começam a focar em fazer a provocação / responder à provocação / etc., a motivação para fazer música começa a girar à volta dessa situações ao invés de ser um processo de auto-melhoria e de estabelecimento de um estilo próprio, de afirmação de mérito próprio. Por isso é que o Nokas, à semelhança de tantos outros MCs, prefere isolar-se: "prefiro a partilha, mas se esta não é possível, eu mantenho-me na minha".

4 - Loucura
Conseguem pensar num instrumental melhor para escrever sobre insanidade mental do que um produzido pelo El-P? Pois, eu também não. Esta música é escrita do ponto de vista de um internado no Magalhães Lemos (hospital psiquiátrico) que vai relatando como é que se alienou do mundo. Um pouco como Gil Vicente usava a figura do 'parvo' para dizer as verdades incómodas nas suas peças, Nokas veste a pele de um esquizofrénico para dar luz ao nonsense que está entranhado no nosso quotidiano e, por isso mesmo, não somos capazes de reconhecer como tal. "Neste sistema não encaixo / onde cada recursos é manipulado para ser escasso / dinheiro é dívida inflacionado na tua rotina suicida para tentares alcançar o custo de vida" é apenas o início do desenrolar da quantidade de irracionalidades que permeiam a nossa vida, aquilo que elegemos como objectivos pessoais e as medidas com que medimos os nossos sucessos. Nokas tells it like it is.

5 - Infitino
Evidence providencia o beat para um som que nos traz o verdadeiro espírito do Hip Hop antes da sua explosão. Há uma rima em particular neste som que eu gostava de destacar: "antes de ser praticante, eu sou fiel ouvinte / eterno seguidor da mensagem que o Hip Hop transmite". Houvesse mais gente com a mesma filosofia e o movimento das quatro vertentes já não pareceriam "quatro movimentos diferentes". Mais uma música em que Nokas demonstra verdadeiro knowledge como já pouco se vê hoje em dia.

6 - Influências

"Influências" é a derradeira faixa deste EP e, talvez, a minha favorita. Não por ser especialmente melhor que as outras, mas pela mensagem e conteúdo transmitidos sobre mais um beat de Evidence. Nokas nomeia um rol de influências nas mais variadas áreas do conhecimento , desde escritores a actores, nas várias áreas da sátira, espiritualismo e activismo. A segunda parte da música, essa, é toda dedicada ao melhor que o rap tem para dar. Se há algum MC ou grupo que não conheçam neste trecho, têm mesmo de ir procurar e ouvir. A grande importância deste música, na minha óptica, advém do facto de Nokas partilhar conhecimento com os seus ouvintes, incentivá-los a ir mais longe na forma como vêem o mundo.

Aqui fica a lista das obras mencionadas na primeira parte da música para quem tiver curiosidadeCollapse )

Talvez esta mixtape tenha especial significado para mim porque comecei a ouvir rap em 2000 e durante muitos anos, não conheci ninguém do Hip Hop em Lisboa. Diria que só comecei a ir a concertos e conviver com pessoal do movimento em Lisboa depois de 2005. Mas penso que, mesmo pondo de parte essa componente algo subjectiva da minha opinião, este é um dos melhores trabalhos que ouvi nos últimos tempos. Aplica-se a Nokas a rima de Blueprint "No breaks, no hooks, no punchlines, no similes so I’m easy to overlook". Claro que todos apreciamos um flow espectacular e umas barras cheias de multies, mas dêem-me um mc com conteúdo a sério e dispenso os malabarismos no flow e na métrica. Este é um MC de knowledge como há poucos porque hoje em dia a maioria dos rappers também não tem knowledge para partilhar logo à partida.

Não me coíbo nadinha de, com base neste trabalho, nomear Nokas um futuro KRS-ONE tuga.

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Projecto Transformers no Porto



Para quem não segue com muita atenção este blog, poderá ter-vos passado ao lado este projecto. Ora o que são estes Transformers?

Os Transformers são um grupo de jovens que quer fazer a diferença na sua sociedade através dos talentos que têm, nomeadamente rap, breakdance, graffiti mas também fotografia, futebol, teatro... you name it! Se tens um talento e achas que podes fazer a diferença através dele, sem dúvida que o teu lugar é nos Transformers. Nomes como Safari (In Motion), MC ERRE, Speedy (In Motion) e Xikano (12 Makakos)

Para mais esclarecimentos, fica aqui o teaser:

SOMOS PLAN PORTUGAL - TRANSFORMERS PROJECT from SOMOS PLAN on Vimeo.



Qual é a grande novidade hoje? O projecto Transformers vai para o Porto!


O Transformers vai ser lançado este ano na cidade Invicta do Porto naquela que vai ser a primeira tentativa de levar a essência e filosofia deste movimento além Lisboa! E precisamos de ti transformer!

Gostavas de saber como o projecto funciona e como podes envolver-te no nascimento no movimento Transformers no Porto?

Tens a tua oportunidade na terça-feira (dia 3 de Abril) às 18h no Hub Porto!
- Localização Hub Porto: http://porto.the-hub.net/public/contact.html

O objectivo será o de estabelecer uma rede de pessoas e entidades na qual o crescimento do movimento transformers possa estar ancorado e vai incluir uma apresentação fresca, inovadora e original do:

1. Modelo de Impacto Social do Projecto Transformers
2. Uma Discussão da Estratégia de Crescimento
3. Próximos passos

Assim, esta sessão destina-se a:

- pessoas que gostavam de fazer parte da equipa de gestão e coordenação do Transformers no Porto;
- instituições ou empresas com interesse em trabalhar com o Transformers no decorrer do próximo ano letivo;
- artistas, desportistas, amantes da cultura urbana e da Cultura Hip-Hop em todas as suas vertentes interessados em serem futuros mentores transformers;
- interessados em empreendedorismo social ou em conhecer o modelo de impacto social do transformers
- a malta de qualquer idade, desde jovens do ensino secundário a profissionais no terreno, de qualquer ramo de estudo, desde aqueles que ainda não tiraram a licenciatura tiraram aos que já têm o seu canudo, com a paixão de transformar jovens em transformers


Qualquer coisa podes contactar-nos através dos emails inesmurteira@projectotransformers.org ou joaobrites@projectotransformers.org.


Esperamos conhecer-te na terça! Aparece! Já somos 230 transformers, espalha a palavra e bora ser ser 100.000!


De que estão à espera Hiphoppas?

From Nicolau With Love

Decidi escrever este post por descargo de consciência. Regra geral, considero importante não ligar quando os artistas pensam que aquilo que escrevo tem motivações negativas; que quando a opinião não é positiva, é porque quero prejudicar alguém. Isso nunca aconteceu. Nada do que escrevo tem por base algum problema pessoal, a minha análise da música está isolada da pessoa que a faz. Tanto assim é que 70% do que escrevo é sobre artistas que não conheço de lado nenhum. O único motivo pelo qual escrevo sobre rap é porque gosto de reflectir sobre a música e a cultura, e como qualquer apreciador de Hip Hop, tenho gostos próprios, que às vezes coincidem com os trabalhos dos artistas e outras não. E quando não coincidem, normalmente procuro fundamentar porquê.

Mas neste caso, decidi abrir uma excepção à minha política de "ignorar ataques pessoais". É que depois de ouvir o som do Player em resposta ao Haka, tornou-se claro para mim que a culpa do som ter ficado assim é, pelo menos em parte, minha. No meu post anterior sobre o assunto, falei sobre as falhas do som "Não É Equívoco" enquanto som de beef, a saber: dicas generalistas e punchlines "estranhas" ou não enquadradas no som. E para ilustrar como se podem colmatar estas falhas, puxei o beef de que tinha falado antes, o do Nerve/X-Tense, porque foi de facto um beef bom.

Mas acho que não me expliquei muito bem, porque neste "Háká Beef" (ou será "Haka e Nicolau Diss"? Ou "Hakabou"? Não sei como é que ainda há quem diga que o Player tem imensos sons por lançar, só em 2 dias lançou três!) o Player não só não corrigiu os aspectos que mencionei, como foi estragar os aspectos positivos do som anterior - tudo isto, com valentes doses de "inspiração" no beef do Nerve/X-Tense. Se calhar devia ter escrito um disclaimer: "menção a outros MCs meramente ilustrativa".

Antes de proceder à análise detalhada do som, importa ressalvar que esta é a minha opinião sobre o som. E para quem não se sentir confortável com a minha opinião, deixo-vos este grande conselho de uma pessoa muito sábia no rap tuga:


Asseguro-vos já que não escrevo para ofender, mas se ainda assim se sentirem ofendidos com a minha opinião, este parece-me um excelente conselho:



Passemos então à análise do som.

Continuar a ler - Possível TL;DRCollapse )

Blueprint - Adventures in Counter-Culture



Blueprint
Adventures in Counter-Culture
Rhymesayers (Abril 2011)


Blueprint é uma presença quase constante no meu dia-a-dia. Desde que ouvi os seus primeiros álbuns, quer a solo, quer em Soul Position, nunca deixei de o seguir, mesmo quando "Things Go Better" me desiludiu profundamente. O facto de o seguir no twitter e no seu website oficial providencia-me com provas suficientes que o Blueprint de "Culumbus or Bust", "1988", "Chamber Music", "8 Million Stories","The Weigthroom" e "Unlimited" continua vivo e de boa saúde, ainda que os trabalhos mais recentes não o tenham demonstrado.

Este "Adventures in Counter-Culture" tem uma história longa e provavelmente já do conhecimento de toda a gente. O álbum já estava concluído e pronto para edição quando o MC foi informado que tinha usado samples sujeitos a copyright, pelos quais seria certamente processado. Assim, Blueprint teve de voltar à estaca zero, removendo e substituindo todos os samples com copyright.

Sabendo que isto aconteceu a "Adventures in Counter-Culture", não pude deixar de ter esse factor em conta quando a produção do álbum não encaixou na perfeição logo à primeira audição. Não tendo ouvido as versões originais dos instrumentais, suponho que nunca saberei se esta sonoridade foi intencional logo desde o início ou se foi apenas um acidente de percurso. Das reviews que li pela internet, uns consideram que Blueprint se está a expandir para novas audiências enquanto outros dizem que Blueprint parece perdido naquilo que realmente quer fazer.

No geral, este é um álbum que contém várias músicas de que gosto bastante. Mas frequentemente há um synth ou um instrumento ou um sample que me soa fora do lugar, mal enquadrado no resto do instrumental. E às vezes é o próprio Blueprint que me soa fora do lugar, como em "Automatic": it's hard enough making hard work seem effortless". Embora seja um chavão que calha sempre bem... não me parece que se aplique a este álbum. Na verdade, soa a um esforço hercúleo que não tenho a certeza de ter resultado na sua totalidade.

Assim sendo, vale a pena comentar as faixas uma a uma.

1 - Five Years Ago
É aquela faixa de intro que só se ouve uma vez e depois se apaga do álbum

2 - Go Hard or Go Home
Esta é uma das faixas que mais me soa a má combinação de elementos. Detesto os synths e os sonzinhos, com as suas melodias que não têm melodia nenhuma. Também considero uma das faixas onde o Blueprint tem pior flow e pior escrita, deixando-se arrastar pela batida que soa demasiado lenta. A única dica que sobressai é "my perfect day is to make a beat, then have sex".

3 - Automatic
À semelhança do som anterior, também esta faixa tem uma batida a tender para o lento. No entanto, talvez a combinação mais feliz de outros samples tenha inspirado uma melhor performance de Blueprint. O flow e as rimas estão bem melhor do que na faixa anterior. Apesar da minha citação anterior desta faixa, é também aqui que se encontra uma daquelas dicas à Blueprint que fazem valer a pena: "Trying to make a soft-synth sound like a sample / Cause everybody want your progress to seem more gradual". Enquanto blogger, tenho de reconhecer a veracidade desta afirmação. É pena o irritante auto-tune, que é mesmo, mesmo muito irritante. Outra dica que talvez mereça destaque é "Like a born again / everything about me is clean / time to explore again / the music is a series of streams", o que de facto explica muito o feeling de "desconjuntado" neste álbum.

4 - Keep Bouncing
O sample vocal do "keep dancing" é giro, mas a batida parece não ter mesmo nada a ver com o resto dos elementos. E a escrita do Blueprint é demasiado reminiscente do fail de "Things Go Better" para eu conseguir curtir. Blueprint, pimp egotrip não é bem contigo.

5 - Wanna Be Like You
Ora este é um dos tais sons que faz este álbum valer a pena, apesar dos pequenos sons a lembrar um jogo de plataformas no início da música. Mas assim que entra a batida, o som fica perfeito. Até o falsete do Blueprint soa bem! O conceito da música em si é genial e a forma como ele aborda o tema é clássico Blueprint. A dinâmica desta música é bastante interessante porque vai progredindo através de instrumentos (fade out de uns, entrada de outros, como por exemplo as guitarras), o que faz com que não seja apenas a letra a contar a história. Tudo culmina em "Our world doesn’t move / til we hear what you say / we wanna be like you / with all your fame and wealth / Cause if we can’t be you / we’ll have to be ourselves". O resto da letra dá uma conclusão engraçada à música, mas na minha mente a letra termina aqui, porque toca naquele ponto crítico em que todos nós vivemos fascinados com as vidas de outras pessoas, não necessariamente famosos, mas que consideramos mais interessantes que nós, porque afinal de contas, ser normal e medíocre é uma seca.

6 - My culture
Outro dos sons fantásticos deste álbum. Como "Wanna Be Like You", esta faixa regista uma progressão, só que feita de instrumentos e letra em partes iguais. Blueprint dedica esta faixa a desfiar a quantidade de artistas de Hip Hop ou relacionados que foram "limpos" a sangue frio. No fim de contas, morreram pela sua cultura, pela cultura Hip Hop, mas como o próprio Blueprint conclui numa tirada de cordas vocais de meter respeito "WHO THE FUCK WANT TO DIE FOR THEIR CULTURE?!" Com esta faixa podemos concluir que não importa o quanto Blueprint queira explorar outras paragens, o Hip Hop é a sua casa.

7 - Mind, Body and Soul
Até ao minuto 1:06, dispensava-se o encher chouriços. A partir do minuto 1:06, dispensava-se o refrão horrível cheio de auto-tune. Exceptuando isso, é um dos instrumentais que melhor sobreviveu a esta fase experimentalista do Blueprint e a letra é das minhas absolutamente favoritas. Blueprint descreve a sua relação com a música, em termos simples, honestos e profundamente sentidos, com que todos nós nos podemos identificar. "It's in stores, but it ain't something you could buy / The way it make you feel, you wanna feel until you die".

8 - So Alive
Este álbum anda todo aos pares. Também este instrumental foi dos que melhor resultou das aventuras de Blueprint, e nem que o Blueprint estivesse a falar sob o efeito de psicotrópicos, esta música ia soar sempre bem. A letra em si é engraçada ainda que não genial. Parece-me demasiado séria e semi-interventiva para este instrumental, mas passa.

9 - Stole Our Yesterday
Não sei qual é a cena do Blueprint e instrumentais com ritmo de balada, mas sem dúvida que é a cena dele neste álbum. Até gosto do instrumental cantarolado desta faixa mas o flow mortiço e a métrica errática do Blueprint neste som faz com que não consiga prestar atenção nenhuma ao que ele está a dizer. É qualquer coisa sobre as agruras da vida.

10 - Radio-Inactive
Podemos colocar esta faixa junto a "Wanna Be Like You" e "My Culture" no grupo das tracks com progressão, e sem qualquer dúvida que esta é a rainha delas todas. Mal o piano entra, já estamos sugados para dentro do ambiente da música e do instrumental. Começa compassado, mas poderoso e Blueprint entra logo de começo em sinergia com o instrumental em flow, métrica e letra. É, se calhar, a minha música favorita deste álbum todo. Acho também que é a letra que soa mais genuína e em maior concordância com aquilo que vejo o Blueprint dizer no twitter e no blog no dia-a-dia, há partes da letra em que ele rima com tanta intensidade que parece que está a arrancar cada palavra ao fundo da alma. " 'Make it more commercial 'Print, you prolly would sell more' / But I'm EATING NOW / So I'm like, what THE HELL for?! / Telling me to change only makes me rebel MORE", "I made this in my basement when you wasn't even there / to express my feelings, not be played on the air / so am I wrong or secure if I really don't care?"

"I write my album on my sidekick
No paper, no notebooks, then rhyme for five minutes straight
No breaks, no hooks, no punchlines, no similes
so I’m easy to overlook

But Grooveshack, Theives World, Expo, Scribblejam
I been around in every single era and I’m still the man
And while I may not get the same hype as the next man
Everything in my life is going according to his plan
So thank God for every fan, every single listener
Who told me to make the art, you don’t gotta switch it up
You put it out, we’ll pick it up
Do you, stay strong
Cause you’re the main reason we don’t turn our radios on."

Esta merecia ser toda citada.

11 - Welcome Home
Tenho quase a certeza que esta foi samplada do Ocean's 13. Aquele com o francês. O instrumental faz-me lembrar o Blueprint de antigamente na produção, o que só pode ser um bom sinal, mas depois a faixa é toda cantada, o que já não faz tanto o meu estilo, até porque me parece que o Blueprint não tem assim demasiado jeito para cantar. Mas a música é bastante agradável.

12 - Fly Away
Detesto o instrumental desta música pelo que me limito a saltá-la.

13 - The Clouds
Esta também não me diz nada, nem letra nem instrumental, pelo que também a salto sempre.

14 - Rise & Fall
Para compensar, a única coisa que não gosto nesta música é o refrão. Porque o instrumental? Brutalíssimo. Lembro-me de ler algures que um instrumental só precisa de violinos para se tornar clássico, se calhar é mesmo verdade. Flow ao nível do beat ainda que um pouco repetitivo, mas gosto do storytelling, bem à Blueprint do 8-Million Stories.

15 - The Other Side
Não percebo qual é a necessidade de fazer uma transição da "Rise & Fall" para esta faixa e chateia-me que essa transição exista porque de cada vez que estou a ouvir a "Rise & Fall", que adoro, parece que sou "aldrabada" a ouvir a faixa seguinte, de que não gosto nem por nada: nem o instrumental, nem a cantoria, nem coisa nenhuma. O mais provável é apagar a música do álbum para não estragar a experiência da música anterior.

Em conclusão: do meu ponto de vista de ouvinte, este é um álbum cheio de altos e baixos, com músicas de que gosto mesmo muito e outras com as quais não posso. Em algumas faixas não percebo o que é que Blueprint está a tentar fazer e noutras ponho a questão de lado porque parece resultar bem. Se esta desarticulação de samples e synths resulta da tal reformulação do álbum por causa do copyright ou se é o Blueprint a seguir as pegadas do RJD2 para brincar às casinhas a nível musical, nunca saberei. O que eu sei é que este álbum tem faixas com letras e instrumentais suficientes que me agradem (mesmo à tangente) para me manter interessada no futuro trabalho de Blueprint.

EDIT: Pelos vistos o Blueprint decidiu lançar um livro sobre o Making of Adventures in Counter-Culture. Damn. Tou super curiosa apesar de nem sequer ter adorado o álbum.



Provavalmente, uma das colaboração mais win deste ano. Tudo nesta track é espectacular, desde as vozes ao instrumental. Uma track viciante, com uma contraparte de 13 minutos (!!), que podem ver abaixo:

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