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CDs, downloads, streaming e pirataria

Hoje vou-vos contar uma história.


A maioria da minha actividade como blogger nos últimos dez anos teve por base uma inquestionável actividade de pirataria. Não estou só a falar do acesso à música - ou alguém acha que os rappers dos States me mandaram CDs para casa na esperança que eu os fosse criticar? - mas também da quantidade astronómica de rap que tive de ouvir para poder dizer com segurança que percebo alguma coisa de rap (embora haja quem tenha dúvidas).

Já há dez anos atrás o download ilegal de música dominava a cena hiphop portuguesa, e já escrevi antes sobre isso. Sem pirataria o hiphop tuga não existia hoje - nem os MCs nem o publico... Nem os bloggers.

Caso não se tenha tornado suficientemente evidente com os meus posts sobre o Lord Finesse, se há coisa que me irrita profundamente são aquelas pessoas que no nosso movimento exigem aos outros o que não exigem a si próprias. O nosso movimento sofre muito disso - são MCs e DJs às dúzias que ficam todos fodidos porque alguém meteu um RAR do seu álbum num site de torrents ou fez upload de uma música para o YouTube sem a sua autorização. Mas se forem eles a fazer o download do RAR ou a fazer play no vídeo de outro artista já pode ser. Enfim, toda a gente tem de respeitar a opinião deles, mas eles têm uma bula papal a dispensá-los de respeitar a dos outros.

Mas o que eu acho mais espantoso que isto - se é que é possível ultrapassar este nível de hipocrisia - é o quão verdadeiramente limitada é esta atitude. Esperar que as pessoas comprem CDs em massa, neste momento, é tão ridículo como esperar que comprem cassetes ou vinis em massa. Hoje em dia a maioria das pessoas já nem tem onde ler os CDs. Não digo que não haja um público, claro que há, tal como há um público para vinis. No entanto, não vejo nenhum MC a queixa-se que não lhe compram vinis. Mas vejo monte de eles queixarem-se que não lhes compram CDs e a expectativa que podem ter de que os comprem está cada vez mais próxima.

Um dia, mais tarde ou mais cedo, vou ter de tirar o meu blog daqui do Livejournal. E já pensei mais do que uma vez na hipótese de passar a escrever exclusivamente em inglês. Embora ao fim de 10 anos eu continue a ser o único blog que alia reviews de rap tuga a artigos de opinião, pensei que teria mais a oferecer ao movimento se passasse a escrever em inglês e assim desse uma visibilidade ao rap português que ele neste momento não tem. Mas depois pensei, para quê? Porque raio vou estar a promover no estrangeiro música que nem eu consigo adquirir? Música que só consigo mostrar aos estrangeiros se linkar para músicas do YouTube que estão lá contra a vontade do artista? Música que eles não podem ouvir legalmente porque nem no Spotify estão?

Causa-me espanto que uma quantidade tão grande dos nossos artistas continue a ser tão curta de vistas. Numa era em que as pessoas mal se dão ao trabalho de fazer download - o que está realmente em crescimento é o streaming, como o Spotify, Grooveshark, Youtube, Bandcamp - MCs andarem tentar vender pedaços de plástico - SÓ pedaços de plástico - é não quererem ver que já não vivemos nesse mundo. Acho absolutamente legítimo quererem ser pagos pela música que fazem (caramba, quem me dera ser paga para escrever blogs), mas nesse caso, vendam música. Eu dei três vezes mais pelo álbum do Suarez do que alguma vez ele custaria numa loja, só pelo facto de ele ter tido a coragem de o pôr para download e ter pedido para o pessoal pagar o que quisesse. Eu dei mais dinheiro por todos os álbuns na minha colecção do bandcamp do que o preço base (mesmo quando o preço base era zero).

Vender CDs tem o seu lugar, é evidente. Muitas pessoas querem genuinamente comprar CDs porque gostam da experiência de ter a caixa nas mãos, ler o booklet, adicionar à colecção. Mas é ingénuo pensar que esses compradores são a maioria ou vão ser no futuro. É ingénuo esperar fazer dinheiro suficiente para pagar o investimento de fazer o álbum só vendendo CDs. Qualquer lançamento hoje em dia tem de ter três veículos de distribuição: edição física (CD e/ou vinil), download e streaming. Todos estes formatos são passíveis de gerar dinheiro para o artista e está mais do que na hora de se darem ao trabalho de os investigar bem.

No próximo post, que vai ser sobre streaming, vou dar uma ajudinha.

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Joana Nicolau

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