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Tilt - ACC/CDM

Saiu ontem, dia 1 de Junho, o novo EP do Tilt, intitulado Alimentar Crianças com o Cancro da Mama.



Dado que escrevi a press release para este trabalho, é um bocado difícil não me repetir. Mas tinha de pelo menos fazer um post a assinalar o seu lançamento porque, na minha opinião, esta é uma das melhores edições de 2013. No passado não gostava muito do estilo do Tilt como MC e achava tanto a escrita como o flow demasiado esquisitos, mas se tinha alguma dúvida depois d' "A Nuvem" (compilação No Karma), ela dissipou-se com este EP. A escrita e o flow podem não ser imediatos de processar, mas depois de uma pessoa se habituar a eles, depois de entrar na engrenagem e perceber como funciona, é todo um novo mundo, toda uma nova experiência como ouvinte.

E vale a pena.

Afinal, não é todos os dias que em vez do usual egotrip do "eu abafo MCs porque sou o maior", temos "MCs são estrelas, e vê-las fora de órbita dá vontade de as dizimar na poeira cósmica" ou "tenho rimas para a Mãe-Terra ter sonhos molhados em tempos de seca". Aliás, todo este EP é um enorme aglomerado de quotables, por isso nem vale a pena ir através delas. É definitivamente um dos trabalhos mais inteligentes e impressionantes que ouvi nos últimos anos e de certa forma tenho pequena que o mercado português seja tão pequeno porque este EP merecia uma audição intensiva.

Os instrumentais foram extremamente bem escolhidos. Em todas as faixas combinam com o ambiente estabelecido pelas rimas, potenciam-no aliás, e o facto do estilo de escrita do Tilt ser pouco linear - assemelha-se mais a snapshots de ideias que evoluem de umas para as outras - contribui para que, em mais do que uma faixa, nos sintamos numa viagem psicadélica - "Diferença" e "Epidural" são bons exemplos. Aliás, em relação a esta faixa, acho merecedor de destaque a forma como Tilt faz referências a todas as outras faixas sem ser dolorosamente óbvio como muitas vezes acontece no rap tuga. Não, são referências que não são nem óbvias nem demasiado subtis; estão lá para serem identificadas à segunda ou terceira audição para quem tiver chegado a essa profundidade de audição ou mesmo para nunca serem identificadas para quem simplesmente não quiser saber.

"1917" é das faixas mais incomuns dentro do incomum que é "ACC/CDM". Este tipo de faixa semi-histórica foi feita no passado por muito poucos MCs, e nunca neste contexto, nunca desta perspectiva. E não sei porquê. Deve haver poucas coisas mais divertidas do que vestir a pele de uma figura histórica e olhar à nossa volta da perspectiva dela. Também a "GTA MS Stories" e a "Homem do Lixo" vão nesse sentido, sendo esta última uma das melhores músicas no estilo "como eu vejo a sociedade a partir da minha janela" que ouvi nos últimos tempos. "Mete nojo a forma como eu me sinto feliz com bué de pouco", diz o gajo que escolheu viver na base da cadeia alimentar, mas ainda assim, "em harmonia com a minha chispa eterna, saio com um sorriso a caminho do trabalho, e isso enerva-te". Claro que enerva. O topo da hierarquia social é um jogo de cadeiras que todos passamos a vida a tentar ganhar e não dá para perceber uma pessoa que, tendo a oportunidade de se sentar, escolhe não jogar. Mas ya, é isso que é ser um "rebelde sem causa mas com um motivo nos braços, a carregar até aguentar montanhas de aço".

A última faixa, "Codex Alimentarius", é das faixas mais fucked up que tive a oportunidade de ouvir no hip hop tuga. É super difícil comentar esta música porque basicamente descreve o gozo (científico?) que um pediatra tem em alimentar crianças com cancro, só para ver o que acontece. Acho que é mais confortável pensar nesta faixa como uma metáfora - independentemente se foi essa a interpretação tencionada pelo Tilt - mas no fundo fica do lado do ouvinte decidir se tem tomates ou não para também interpretar a música num sentido literal. Afinal, tanto num sentido literal como metafórico, acaba por ser bastante perturbador imaginar que todos os dias nos alimentamos com os nossos próprios venenos. Tal como em todas as faixas anteriores, também nesta podemos encontrar referências inteligentes, como por exemplo ao Flautista de Hamelin (bastante apropriado).

O DJ Apu, a única participação no EP, fez um óptimo trabalho no scratch. Penso que a sua participação contribuiu bastante para dar ao EP o feeling de EP.

Não sei se esta review fez justiça ao EP do Tilt, afinal não é um EP fácil de ouvir e decididamente terá muitas interpretações diferentes por diferentes ouvintes. Mas espero que tenha servido o meu propósito principal, que era mostrar que vale a pena ouvi-lo.

O EP pode ser ouvido no Bandcamp ou sacado no site da No Karma.

EDIT: O EP já pode ser comprado no bandcamp!

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