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So Long, and Thanks for All the Fish

Não tenho ouvido música hip hop e digo-vos porquê.

É sabido que tenho afasia e traz consequências. Eu processo, leio e falo devagar. E a música é mesma coisa. Quando ouço uma música, não percebo a letra. E não falo da musica hip hop; falo sim de pop! A título de exemplo, trago a musica mais recente de Justin Bieber.

https://www.youtube.com/watch?v=NywWB67Z7zQ

Gosto do instrumental e coiso, mas só consigo ouvir é:

“What do you mean
ohhhh
Adadsdd yes aadayzas no
What do you mean
yeahhhh
Olfgggde move fsdegde go
What do you mean
Ohhh
What do you mean
Adfghjoldfeeedeffrgtthhyjjukikigveecacve
What do you mean
oooOOOOOhhh
What do you mean
Dfefefeolld mind
What do you mean”

E isto é um refrão!

Mas, perguntar-me-iam, “ah, e se lesses a letra num site?”

Eu leio devagar, remember? Não consigo conjugar ler e ouvir música. Ou então, faço slow montion enquanto leio e fica tipo isto:

https://drive.google.com/file/d/0BwragNH17UrHbUhqcDA5QURYZHc/view?usp=sharing

Ya know I’m saying, right?

E isto é pop. Agora, imagina que era hip hop. Os meus favoritos são Aesop Rock, Cage, Brother Ali, Non-Prophets, Blueprint, Atmosphere, Blu, EL-P, Cannibal Ox, etc. Todos os artistas usam comparações, humor, metáforas. Depois da afasia, metade percebo (acompanhado com a letra) e outra metade, frases com piada, humor, etc., leva tanto tempo a perceber que não acho piada anymore.

Mais pareço o Andy Kaufman. O Andy não percebe onde está a piada. E eu também não. (Btw, vi o filme e não tem piada. É ironico, não é?).

Portanto, críticas a álbuns, cronicas a concertos, todos o mundo acerca do hip hop… acabou. 10 anos de vivencias e escrevi sobre isso, e, por isso, um legado que vos deixo.

Queria agradecer aos meus fãs, aos meus haters e aos meus assim-assim. Também queria agradecer em particular: Fred (que me deu o 101 do hip hop), Stray (que me deu os básicos de rap indie, mesmo que não goste de mim), Darksunn (na mesma razão mas gosta de mim), Nerve (que me sempre apoiou e eu a ele) e Sarcasmo (o último amigo que fiz no meio do hip hop).

Well.

So Long, and Thanks for All the Fish.

E não, não vi o filme.

Joana Nicolau

Update... Not much

Meus caros (e haters também),

O Hiphop tem duas partes: o beat e as letras. Os instrumentais consigo ouvir mas letras... Não consigo. Muito rápido e com segundo sentido (ou terceiro sentido lol...), metáforas e não consigo perceber humor/piadas/satíricos.

Nem Português nem Inglês nem Espanhol e mesmo outros músicas (pop, indie rock, etc).

As letras são o mais que tudo, o mais importante.

Afasia é isto.

Hei-de conseguir outra vez. Mas, por agora, não posso escrever críticas de Hiphop.

GPOY:


Bem-hajam.
Nicolau

Uma mensagem

Tive um AVC e fiquei com afasia.

No principio não conseguia falar nem escrever.

Fiquei afectada dos membros direitos.

Tenho vindo a melhorar mas muito devagar.

Ainda tenho muitas dificuldades, principalmente com os verbos.

No Princípio Era (O Verbo). Pois, os verbos…

Continuo em reabilitação diariamente.

Tenham paciência e esperem por mim.

Eu volto.

Joana Nicolau
"And the media asked, 'Amanda, the music business is tanking and you encourage piracy, how do you make all this people pay for your music?'

And the real answer is, I didn't make them. I asked them".

"I think people have been obsessed with the wrong question, which is 'how do we MAKE people pay for music?' What if we started asking, 'How do we LET people pay for music?"

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CDs, downloads, streaming e pirataria

Hoje vou-vos contar uma história.


A maioria da minha actividade como blogger nos últimos dez anos teve por base uma inquestionável actividade de pirataria. Não estou só a falar do acesso à música - ou alguém acha que os rappers dos States me mandaram CDs para casa na esperança que eu os fosse criticar? - mas também da quantidade astronómica de rap que tive de ouvir para poder dizer com segurança que percebo alguma coisa de rap (embora haja quem tenha dúvidas).

Já há dez anos atrás o download ilegal de música dominava a cena hiphop portuguesa, e já escrevi antes sobre isso. Sem pirataria o hiphop tuga não existia hoje - nem os MCs nem o publico... Nem os bloggers.

Caso não se tenha tornado suficientemente evidente com os meus posts sobre o Lord Finesse, se há coisa que me irrita profundamente são aquelas pessoas que no nosso movimento exigem aos outros o que não exigem a si próprias. O nosso movimento sofre muito disso - são MCs e DJs às dúzias que ficam todos fodidos porque alguém meteu um RAR do seu álbum num site de torrents ou fez upload de uma música para o YouTube sem a sua autorização. Mas se forem eles a fazer o download do RAR ou a fazer play no vídeo de outro artista já pode ser. Enfim, toda a gente tem de respeitar a opinião deles, mas eles têm uma bula papal a dispensá-los de respeitar a dos outros.

Mas o que eu acho mais espantoso que isto - se é que é possível ultrapassar este nível de hipocrisia - é o quão verdadeiramente limitada é esta atitude. Esperar que as pessoas comprem CDs em massa, neste momento, é tão ridículo como esperar que comprem cassetes ou vinis em massa. Hoje em dia a maioria das pessoas já nem tem onde ler os CDs. Não digo que não haja um público, claro que há, tal como há um público para vinis. No entanto, não vejo nenhum MC a queixa-se que não lhe compram vinis. Mas vejo monte de eles queixarem-se que não lhes compram CDs e a expectativa que podem ter de que os comprem está cada vez mais próxima.

Um dia, mais tarde ou mais cedo, vou ter de tirar o meu blog daqui do Livejournal. E já pensei mais do que uma vez na hipótese de passar a escrever exclusivamente em inglês. Embora ao fim de 10 anos eu continue a ser o único blog que alia reviews de rap tuga a artigos de opinião, pensei que teria mais a oferecer ao movimento se passasse a escrever em inglês e assim desse uma visibilidade ao rap português que ele neste momento não tem. Mas depois pensei, para quê? Porque raio vou estar a promover no estrangeiro música que nem eu consigo adquirir? Música que só consigo mostrar aos estrangeiros se linkar para músicas do YouTube que estão lá contra a vontade do artista? Música que eles não podem ouvir legalmente porque nem no Spotify estão?

Causa-me espanto que uma quantidade tão grande dos nossos artistas continue a ser tão curta de vistas. Numa era em que as pessoas mal se dão ao trabalho de fazer download - o que está realmente em crescimento é o streaming, como o Spotify, Grooveshark, Youtube, Bandcamp - MCs andarem tentar vender pedaços de plástico - SÓ pedaços de plástico - é não quererem ver que já não vivemos nesse mundo. Acho absolutamente legítimo quererem ser pagos pela música que fazem (caramba, quem me dera ser paga para escrever blogs), mas nesse caso, vendam música. Eu dei três vezes mais pelo álbum do Suarez do que alguma vez ele custaria numa loja, só pelo facto de ele ter tido a coragem de o pôr para download e ter pedido para o pessoal pagar o que quisesse. Eu dei mais dinheiro por todos os álbuns na minha colecção do bandcamp do que o preço base (mesmo quando o preço base era zero).

Vender CDs tem o seu lugar, é evidente. Muitas pessoas querem genuinamente comprar CDs porque gostam da experiência de ter a caixa nas mãos, ler o booklet, adicionar à colecção. Mas é ingénuo pensar que esses compradores são a maioria ou vão ser no futuro. É ingénuo esperar fazer dinheiro suficiente para pagar o investimento de fazer o álbum só vendendo CDs. Qualquer lançamento hoje em dia tem de ter três veículos de distribuição: edição física (CD e/ou vinil), download e streaming. Todos estes formatos são passíveis de gerar dinheiro para o artista e está mais do que na hora de se darem ao trabalho de os investigar bem.

No próximo post, que vai ser sobre streaming, vou dar uma ajudinha.

Tilt - ACC/CDM

Saiu ontem, dia 1 de Junho, o novo EP do Tilt, intitulado Alimentar Crianças com o Cancro da Mama.



Dado que escrevi a press release para este trabalho, é um bocado difícil não me repetir. Mas tinha de pelo menos fazer um post a assinalar o seu lançamento porque, na minha opinião, esta é uma das melhores edições de 2013. No passado não gostava muito do estilo do Tilt como MC e achava tanto a escrita como o flow demasiado esquisitos, mas se tinha alguma dúvida depois d' "A Nuvem" (compilação No Karma), ela dissipou-se com este EP. A escrita e o flow podem não ser imediatos de processar, mas depois de uma pessoa se habituar a eles, depois de entrar na engrenagem e perceber como funciona, é todo um novo mundo, toda uma nova experiência como ouvinte.

E vale a pena.

Afinal, não é todos os dias que em vez do usual egotrip do "eu abafo MCs porque sou o maior", temos "MCs são estrelas, e vê-las fora de órbita dá vontade de as dizimar na poeira cósmica" ou "tenho rimas para a Mãe-Terra ter sonhos molhados em tempos de seca". Aliás, todo este EP é um enorme aglomerado de quotables, por isso nem vale a pena ir através delas. É definitivamente um dos trabalhos mais inteligentes e impressionantes que ouvi nos últimos anos e de certa forma tenho pequena que o mercado português seja tão pequeno porque este EP merecia uma audição intensiva.

Os instrumentais foram extremamente bem escolhidos. Em todas as faixas combinam com o ambiente estabelecido pelas rimas, potenciam-no aliás, e o facto do estilo de escrita do Tilt ser pouco linear - assemelha-se mais a snapshots de ideias que evoluem de umas para as outras - contribui para que, em mais do que uma faixa, nos sintamos numa viagem psicadélica - "Diferença" e "Epidural" são bons exemplos. Aliás, em relação a esta faixa, acho merecedor de destaque a forma como Tilt faz referências a todas as outras faixas sem ser dolorosamente óbvio como muitas vezes acontece no rap tuga. Não, são referências que não são nem óbvias nem demasiado subtis; estão lá para serem identificadas à segunda ou terceira audição para quem tiver chegado a essa profundidade de audição ou mesmo para nunca serem identificadas para quem simplesmente não quiser saber.

"1917" é das faixas mais incomuns dentro do incomum que é "ACC/CDM". Este tipo de faixa semi-histórica foi feita no passado por muito poucos MCs, e nunca neste contexto, nunca desta perspectiva. E não sei porquê. Deve haver poucas coisas mais divertidas do que vestir a pele de uma figura histórica e olhar à nossa volta da perspectiva dela. Também a "GTA MS Stories" e a "Homem do Lixo" vão nesse sentido, sendo esta última uma das melhores músicas no estilo "como eu vejo a sociedade a partir da minha janela" que ouvi nos últimos tempos. "Mete nojo a forma como eu me sinto feliz com bué de pouco", diz o gajo que escolheu viver na base da cadeia alimentar, mas ainda assim, "em harmonia com a minha chispa eterna, saio com um sorriso a caminho do trabalho, e isso enerva-te". Claro que enerva. O topo da hierarquia social é um jogo de cadeiras que todos passamos a vida a tentar ganhar e não dá para perceber uma pessoa que, tendo a oportunidade de se sentar, escolhe não jogar. Mas ya, é isso que é ser um "rebelde sem causa mas com um motivo nos braços, a carregar até aguentar montanhas de aço".

A última faixa, "Codex Alimentarius", é das faixas mais fucked up que tive a oportunidade de ouvir no hip hop tuga. É super difícil comentar esta música porque basicamente descreve o gozo (científico?) que um pediatra tem em alimentar crianças com cancro, só para ver o que acontece. Acho que é mais confortável pensar nesta faixa como uma metáfora - independentemente se foi essa a interpretação tencionada pelo Tilt - mas no fundo fica do lado do ouvinte decidir se tem tomates ou não para também interpretar a música num sentido literal. Afinal, tanto num sentido literal como metafórico, acaba por ser bastante perturbador imaginar que todos os dias nos alimentamos com os nossos próprios venenos. Tal como em todas as faixas anteriores, também nesta podemos encontrar referências inteligentes, como por exemplo ao Flautista de Hamelin (bastante apropriado).

O DJ Apu, a única participação no EP, fez um óptimo trabalho no scratch. Penso que a sua participação contribuiu bastante para dar ao EP o feeling de EP.

Não sei se esta review fez justiça ao EP do Tilt, afinal não é um EP fácil de ouvir e decididamente terá muitas interpretações diferentes por diferentes ouvintes. Mas espero que tenha servido o meu propósito principal, que era mostrar que vale a pena ouvi-lo.

O EP pode ser ouvido no Bandcamp ou sacado no site da No Karma.

EDIT: O EP já pode ser comprado no bandcamp!

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Visto que o meu último post foi feito em Janeiro (já lá vão... 4 meses?!) apercebi-me que deixei passar demasiadas oportunidades de fazer reviews de álbuns um a um, pelo que me parece que a melhor alternativa é fazer um post com o balanço das edições que ouvi até agora.

Obviamente, houve vários álbuns que foram editados e eu nem me apercebi. O problema dos sites / blogs de notícias é que postam tanta informação que a certa altura simplesmente deixo de processar, e depois escapam-me coisas importantes. Se acham que não inclui aqui o melhor álbum do ano até agora e que devia totalmente ouvi-lo, digam-me. Claro que há trabalhos que ouvi este ano e que não vou mencionar neste post, mas tenho noção de que tem saído muita coisa que ainda não ouvi.

O meu último post, sobre as minhas expectativas para 2013, listava vários álbuns que estava ansiosa por ouvir. Outros, não estão nessa lista e acabaram por ser agradáveis surpresas. Vamos então a cada um deles.

Beware Jack Coisas de 1 Porco

Beware Jack - Coisas de 1 Porco

O novo álbum de Beware Jack, com este título estranho, teve até direito a video promocional. E muito bem, porque este álbum foi uma das melhores surpresas de 2013.O álbum tem um registo semelhante ao "O Mundo É Meu", portanto quem gostou do álbum anterior, muito provavelmente vai gostar deste também. Beware Jack tem uma abordagem à escrita que me faz lembrar o Kilú - o que é engraçado, porque o Kilú participa neste álbum como produtor - mas mais refinado, com um propósito mais demarcado. A escrita de Beware Jack não quer ser óbvia, pretende apenas desenhar os traços gerais da ideia que quer passar e cabe ao ouvinte completar com os detalhes. Por outro lado, o flow é dos mais únicos na tuga: tranquilo mas emotivo, o próprio flow conta uma história. Isto, aliado a uma produção que em tudo é perfeita para o tipo de rap que faz, acaba por resultar num trabalho sólido e super interessante. Os únicos aspectos negativos que tenho a apontar são a intro (o conceito é demasiado forçado e óbvio e não o associo à escrita mais subtil do Beware) e a faixa "Bad Luck Show Me Love", com a participação de Lady M, cujos problemas de métrica nas rimas tornam a faixa penosa de se ouvir. O beat também parece totalmente desenquadrado do resto do álbum. Por outro lado, as participações de Praso, Blasph e Lancelot estiveram on point. Por fim, quero destacar a faixa "Modelo Pirata" pelo simples facto de que é a "prova viva" de que é possível fazer sons de intervenção social que não são uma seca e a repetição de todos os outros sons anteriores feitos sobre o assunto. Fazer sons de intervenção social toda a gente faz, mas sons que soam únicos, que não são só dizer "ahh não temos dinheiro, o governo é mau"? Não é para todos. Parabéns também ao DJ Yoke pela excelente performance na produção e nos pratos.

O álbum pode ser sacado no Bandcamp, mas não sei porquê, não nos dá a opção de comprar :(




AVC - Bagaço, Ovos-Moles & Diplexil

Este álbum estava na minha lista dos mais aguardados mas acabou por não corresponder às expectativas. Não tenho qualquer dúvida que este estilo de música agrada a muitos - afinal de contas, músicas sobre estar bêbado, mocado e comer gajas num embrulho de punchline é provavelmente o tipo de rap mais apreciado em geral. Mas até rap "safoda style" e de avacalho pode ser melhor ou pior executado. "Bagaço, Ovos-Moles e Diplexil" tem mais feeling de mixtape do que de álbum no sentido em que parece que juntaram várias faixas que foram fazendo ao longo do tempo ao invés de terem trabalhado num álbum de raiz - não formam um conjunto coeso, não fazem uma unidade. Por outro lado, os próprios MCs parecem desencontrados a nível de tipo de escrita e arrisco mesmo dizer de skill. "Eu sou tipo uma galinha, a tua mãe é milho / e o teu pai dá-lhe com o cinto / granda cabrão / ainda ontem a montámos em dupla penetração" não está lá muito bem alinhado com, por exemplo "Não sei se fale da tua irmã / é o corpóreo de Satã / gosta de trincar a maçã / no trabalho de ancas sai à mamã". Ser-se boçalmente ordinário ou inteligentemente indecente são duas abordagens absolutamente válidas em si próprias, mas não são a mesma coisa e não combinam necessariamente bem uma com a outra. Qualquer um pode ser badalhoco mas sê-lo de forma inteligente e engraçada requer uma capacidade de escrita mais apurada. Esta disparidade de registos afecta o álbum como um todo e, entre rimas e instrumentais, acabo por não gostar de alguma coisa em cada som. No geral, esperava pelo menos uma ou duas faixas em que Haka, Spasm e Sarcasmo saíssem daquilo que é tradicionalmente AVC e nos dessem um bocado mais daquilo que cada um já mostrou ser capaz de fazer nos seus álbuns a solo. "Bagaço, Ovos-Moles e Diplexil" é um álbum que ouvi apenas uma ou duas vezes pelas referências e dicas pontuais que de facto são engraçadas e bem pensadas, mas de resto não me parece que vá ouvi-lo de novo. Espero melhor dos futuros álbuns a solo.

Álbum no Bandcamp para quem quiser ouvir e sacar.




Damani Van Dúnem - Statu Quo

Esta foi outra das surpresas deste ano. Damani Van Dúnem sempre teve um estilo de música muito próprio e até experimental em várias situações (quem é que se lembra da "Betadine"? :P) e não posso dizer que tenha gostado sempre do que ele fez. Mas este álbum tem o meu selo de aprovação. Está muito maduro, muito bem trabalhado, quer a nível técnico, quer a nível artístico. Sente-se que Damani investiu imenso neste álbum, sente-se a alma e dedicação dele em cada música. A minha música favorita é, claro, o single "Fashionista" - a mensagem é tão realista e tão bonita ao mesmo tempo! Aliás, a esmagadora maioria das músicas consegue aliar uma escrita muito consistente a uma musicalidade agradável, conseguindo por vezes incluir referências culturais das quais tinha algumas saudades e também uma certa "moral da história" (como por exemplo em "Aghatussi" ou "Aki na Banda"). Mais uma vez, notem que músicas de intervenção social ou de "observador social" não têm de ser sempre o mesmo formato e podem ser bem feitas como podemos ouvir na "Ma Trip". Outra das minhas favoritas é a "Afri Can" pela escrita, pela mensagem, pelo instrumental... enfim, por tudo o que compõe este som! É uma perspectiva ligeiramente diferente da habitual e com muito mais valor por causa disso. De negativo só tenho a apontar as aparições do autotune (como na "Dá-me Money") que, pessoalmente, considero totalmente dispensáveis.

O álbum é produzido em grande parte pelo Celso OPP e que óptimo trabalho ele fez aqui!

Statu Quo pode ser ouvido e sacado no Bandcamp.




Stray - Coraçãozinho de Satã

Bem a par com a minha fama de só gostar de rap indie, tinha expectativas de gostar bastante deste álbum, especialmente porque ouvi o single "Coraçãozinho de Satã" alguns dias antes do lançamento e gostei bastante da combinação instrumental / tema. Sempre gostei muito da escrita do Stray mesmo antes de ele entrar na Matarroa e o facto de ele não ter problemas, enquanto artista, em mudar de sonoridade, experimentar diferentes tipos de instrumentais, diferentes abordagens, é algo que sempre considerei positivo nele enquanto artista. Claro que isso acarreta o risco de não gostar sempre do resultado dessas experiências. Enquanto que "O Diabo" me encheu as medidas (especialmente a música "Akuma" que está simplesmente brilhante), "Coraçãozinho de Satã" ficou muito aquém. A produção de Keyboard Kid sem dúvida que dá grande peso ao álbum mas os temas e a escrita de Stray foram além do abstracto em direcção ao sem sentido. É difícil encontrar o propósito, a mensagem ou mesmo a ideia por trás dos versos. Os nomes das músicas, referências ao universo nerd (Dragonball, Star Wars, etc), parecem não ter muito a ver com o conteúdo da música em si. E a cena de rimar a duas vozes (parte com a voz normal, parte com voz distorcida), que eu teria desconsiderado de todo se acontecesse só numa faixa, quando feito no álbum todo soa-me menos a referência e mais a cópia do Tyer, the Creator. Claro que se pode argumentar sempre que o Tyler não foi o primeiro a incorporar vozes diferentes para "personagens / personalidades" diferentes (Madlib anyone?) nem é o único com direito a fazê-lo. Mas com tudo isto combinado fico a questionar-me onde é que este álbum queria chegar ou se era suposto chegar a algum sítio sequer.

Como aspectos positivos neste álbum há que mencionar os instrumentais, conforme dito anteriorment, e as referências / metáforas inteligentes que se apanham aqui e ali. Esta álbum conta também com a participação de Manuel Cruz (faixa "Âncora") e dos jinxies J-K e Pulso. Álbum disponível no Bandcamp.




Taseh - Dekotora

O único álbum instrumental da lista vem também da crew Monster Jinx. Um bom resultado da diversidade sonora desta net label e um dos melhores trabalhos de electrónica/dubstep que ouvi este ano. Taseh mostra em Dekotora que é mais do que merecedor do título de vencedor do DMC e do IDA PT. O álbum abre em grande com um dubstep daqueles bem puxados e depois progride para várias facetas da música electrónica, não necessariamente à base de baixos para rebentar colunas, mas conseguindo manter aquela faísca de épico em cada faixa. Qualquer faixa deste álbum é capaz de mandar a casa abaixo no meio de um DJ set e só tenho pena que sejam apenas sete faixas. No entanto, são sete faixas que se conseguem ouvir em repeat um dia inteiro sem cansar e se são fãs do estilo, vão fazê-lo com certeza.

Dekotora pode ser ouvido e sacado no Bandcamp.

Expectativas para 2013

2012 foi um ano interessante a nível de lançamentos mas sinceramente não me apetece fazer um post de "melhores de 2012" porque não acho que tenha ouvido tudo o que foi lançado (nem perto disso) e portanto acho que os outros principais sites de notícias de rap fizeram um melhor trabalho do que eu poderia fazer.

Portanto, em alternativa, aqui fica um post sobre os álbuns que aguardo com maior expectativa para o próximo ano.

De notar que os álbuns que vou mencionar podem nem sequer sair no próximo ano. É possível que sim e nesse sentido escrevo este post, mas não tenho qualquer informação dos artistas ou das editoras nesse sentido. E se calhar até há álbuns que vão sair e já foram anunciados e eu nem me estou a lembrar. E já agora, é a lista dos álbuns que EU mais aguardo, não a lista dos melhores artistas de 2013 ou assim.

Cá fica a lista, em nenhuma ordem em particular:

Valete - Homo Libero

O Valete é um dos MCs de que mais gosto e há mais tempo. É um MC que tem sempre algo de relevante a dizer. As últimas músicas que têm saido (Meu País, Os Melhores Anos, Mulheres da Minha Vida) têm mostrado uma rara capacidade de absorver o que se passa na sociedade à sua volta e transformá-lo em músicas que nos tocam profundamente. Isto sem nunca cair em lugares comuns ou frases feitas. Sei que muita gente preferia o Valete do Educação Visual, mas tudo tem o seu tempo e acho que este novo caminho que o Valete percorre agora é na direcção de maior maturidade musical, mais perfeccionismo e até mais seriedade, sem nunca perder de vista o liricista do tempo de Canal 115. É sem dúvida um dos álbuns no qual ponho a fasquia mais elevada. Adoro as produções do Nave e acho que combinam na perfeição com a nova abordagem do Valete. Não espero nada abaixo de espectacular.

Nerve - Trabalho & Conhaque - ou - A Vida Não Presta & Ninguém Merece a Tua Confiança

É para mim um privilégio poder dizer que já tive a oportunidade de ouvir partes do que será este álbum e apesar de achar que é sempre boa ideia manter as expectativas realistas, a verdade é que só espero algo espectacular vindo daqui. O Nerve desde que começou a rimar que tem uma escrita muito acima da média combinada com uma métrica e word play inteligentes que têm vindo a melhorar cada vez mais nos últimos anos, já para não falar de um flow dos mais flexíveis que tenho ouvido. Portanto não é um caso de um MC que era razoável e foi melhorando, mas sim de um MC que era bom e se foi tornando incrível. É também um MC que não tem pressa nenhuma de "mandar um álbum cá pra fora", o que significa que este álbum já está em andamento há bastante tempo e que as arestas estão a ser limadas ao milímetro. Não sei até que ponto os habituais ouvintes do Nerve vão gostar ou não desta nova linha de rap, mas para mim, se este não for o álbum do ano, há-de andar muito lá perto.

Compilação Lingua Nativa

Este muito pouca gente deve saber o que é, mas eu explico. A Lingua Nativa é uma label do produtor suiço-galego Deloise (que os fãs da Matarroa devem conhecer bem) que tem como principal focus/missão promover e celebrar o rap feito, como o próprio nome indica, na língua nativa. Algures no futuro próximo deverá sair uma compilação com o selo desta label de vários sons produzidos pelo Deloise - que é um produtor do melhor que há, e daí incluir este trabalho nesta lista - e com participações de MCs espanhóis e portugueses. Não faço ideia do estilo nem da lista completa das participações, mas só pelo Deloise, sem dúvida que vai ser um trabalho do caraças.

Regula - Gancho

Não incluo este álbum aqui pelas mesmas razões que os anteriores. Este álbum para mim será, ironicamente ou não, um tira-teimas (lol). Isto é, nos últimos anos os sons do Regula não me têm chamado particularmente à atenção, mas recentemente ele lançou dois sons, o Kill Bills - que é do caralho - e o Casanova - que prefiro não comentar - e portanto agora estou com curiosidade de ver para que lado é que o álbum vai pender. E um à parte totalmente não relacionado com nada: lá de onde eu sou, "Gancho" tem um significado completamente diferente. Acho que nunca vou conseguir dizer o nome deste álbum sem me rir.

AVC

2011 e 2012 foram bons anos para os elementos de AVC, que lançaram álbuns a solo com muito mérito próprio, ainda que muito diferentes entre si e completamente diferentes de AVC. No entanto, pelo que já pude ouvir do próximo álbum de AVC (que não deve demorar muito a sair) parece-me que vem aí serious business. O avacalho do costume mas com maior individualismo e mais consistência sonora. Ou então não. Quem sabe. Vamos aguardar.

Tilt - Alimentar Crianças com Cancro da Mama

O Tilt é um mc pouco convencional que até há pouco tempo não conseguia perceber. Tem um flow/métrica fora do comum e uma escrita pouco linear que no passado fez com que não percebesse o que é que ele estava a fazer ou onde queria chegar. Mas mais recentemente, nomeadamente desde a participação dele na Compilação No Karma com A Núvem, mudei completamente de opinião. No próximo ano o Tilt vai lançar este trabalho cujo título já deixa antever que não vai ser nada fácil de digerir mas diferente e interessante vai ser de certeza. Tenho muita curiosidade de ver como é que o público vai reagir.

EDIT: Após este post fui informada no facebook que 2013 trará também um novo álbum de Dealema!
EDIT: Outros álbuns que o pessoal do facebook teve a gentileza de me recordar e que irei acrescentando à medida que vierem: Kristoman, Marechal, NBC - Toda a Gente Pode Ser Tudo, Ferry, Nocas - Auto-Cultivo, Expeao, Tribruto, Minus, Simple, Bob, Deau, Keso, Stray, Capicua, Blasph - Frankie Diluvio e J-K vai lançar, ao contrário de rumores lançados pelo próprio.

L - A Prova

Hoje foi aquele dia em que vou através de todos os emails de divulgação de novos trabalhos que deixei acumular durante semanas. Entre eles estava este video, da autoria do L.



Apesar de não ser grande fã de refrões cantados, neste caso quando cheguei ao final da música até me começou a soar bem. Mas o que eu realmente gostei neste som foi a combinação do instrumental com a letra - há muito tempo que não ouvia um som em que o mc conta a história de como começou no rap e me soa genuina. A maioria das vezes é demasiada lamentação e vitimização, para depois passar ao outro extremo de auto-glorificação, e acaba por ser só cliché e seca. Mas neste caso não. A música soa mesmo ao que deve soar - a um relato sentido mas não exagerado de uma viagem pessoal através dos aspectos positivos e negativos de se começar (e continuar) a fazer rap.

Outra coisa que também gostei nesta música - e que também apreciei em trabalhos anteriores do L - é o facto dos videos mostrarem os vários elementos do instrumental (e desta vez inclui um gato, o que poderá ser ou não o único motivo pelo qual estou a escrever este post... :D). Acaba por tornar o video mais interessantes do que se fosse o normal de um mc em frente a uma câmara a rimar em playback.

O flow não é dos mais extraordinários que já ouvi, mas sinceramente, neste tipo de som até prefiro assim. Nos últimos tempos o rap que tenho ouvido fez-me associar flows demasiado apurados a escrita abaixo da média, o que acaba por tornar a música pouco interessante. Neste caso acho que está uma boa combinação de ambos os elementos, o que acaba por nos fazer prestar mais atenção à mensagem.

Random News

Enquanto não posto outro TL;DR, aqui ficam com umas novidades fixes que tenho estado a ouvir.

Nova track de DOPE DOD
Dope dod - The Strike by state_magazine

Novo álbum de Vinnie Paz, "God of the Siringueti", já saiu e a primeira audição parece-me muito positiva, pelo menos bem melhor do que o álbum anterior.


E também já saiu o novo álbum de POS! E está brutal!!!! Quem não ouviu tem mesmo de ir ouvir.


A nível da tuga, podem ler a nova biografia do Kristo, escrita por mim.

E podem ver o primeiro video de uma série de vários a ser lançados pelos M.A.C., chamado OFF THE REC Sessions. Este conta com o Kosmo Dagun.

Hip Hop 2.0 - Parte 3 - Redes sociais

Retomando os posts sobre a adaptação do Hip Hop à nova realidade da internet. Este post é sobre redes sociais e a forma como estão a ser utilizadas pelos artistas.

Facebok

Como é evidente, não vou explicar para que serve o facebook e como é que se usa. Mas acho importante sublinhar o que é que o facebook não é. O facebook não é um substituto de uma campanha de lançamento. É estarrecedor para mim a quantidade de mcs que decidem que vão lançar um álbum, um EP ou uma mixtape e limitam-se a postar no facebook e a spammar umas quantas pessoas no chat.

Pronto, está lançado.

E isto não acontece só com artistas que estão a começar e não têm mais apoios. Não, isto acontece com artistas que têm editoras ou labels. Wtf? Então mas vocês têm o apoio e a disponibilidade por parte de uma label para vos promover junto de diversos meios de comunicação e desperdiçam essa oportunidade com posts no facebook?

Vá lá, levem-se um pouco mais a sério.

É má ideia lançar um álbum sem qualquer tipo de estratégia. Não estou a dizer que não postem no facebook quando lançam cenas, mas façam-no como parte de algo planeado com os vossos homies e a vossa crew. Porque o preço de andar a fazer posts à toa no facebook é que nada soa a novidade. A quantidade de posts que vemos e ignoramos todos os dias é subestimada por muitos artistas, e quando finalmente nos aparece no feed algo partilhado por alguém com quem temos gostos em comum (o que torna mais provável gostarmos do projecto a ser promovido) pensamos imediatamente "ah já vi isto em qualquer lado, não é nada de novo".

Tenham consciência que hoje em dia muita coisa passa pelo facebook, mas o facebook não é tudo. Dêem-se ao trabalho de ter um press release e de o enviar para os sites de notícias. Ou então, falem com os autores desses sites directamente. Combinem com a vossa crew três ou quatro dias em que todos postam o teaser / single / whatever. Se têm uma label, deve ser a label a divulgar primeiro e não vocês individualmente.

Acima de tudo, lembrem-se que quando vocês (qualquer pessoa) fazem um post no facebook, a percentagem dos vossos amigos que vê esse post é ínfima - em média, é cerca de 12%. Por isso, não se iludam que estão a falar para o mundo quando postam "NOVO EP METAM LIKE".

E por amor de deus, não andem a espalhar links nos chats. O tempo do marketing intrusivo estilo "PÁRA TUDO O QUE ESTÁS A FAZER E VAI A ESTE LINK OUVIR A MINHA CENA APESAR DE NÃO ME CONHECERES DE LADO NENHUM" se não acabou, está quase. E pelo amor de deus, não peçam likes. Isso é ainda mais deprimente e wanna be do que espalhar links.


Twitter versus Facebook

Dificilmente posso dar lições de moral sobre segmentação de redes sociais. Sou demasiado preguiçosa para isso. Mas hey, eu sou provavelmente a blogger mais irregular da tuga, aprendam com os maus exemplos também. Mas tenho verdadeira apreciação por quem o faz.

Vejamos como exemplo aqui o dia em que o Mac Lethal fez knock out a um gajo num aeroporto. Têm a história relatada no twitter e no facebook. Como podem ver, no twitter foi relatada em tempo real (porque é essa a forma como o twitter funciona) enquanto no facebook foi apenas um post, após o facto consumado.

Mais do que isso, acho que o Twitter é uma rede social especialmente propícia para se mostrar a persnalidade do seu autor. Vejamos alguns exemplos dos meus favoritos e de como eles diferem entre si.

C-Chan (de Slow Suicide Stimulus) versus Tiago Lessa (de Godzilla e Chinchila). Porque é que juntei estes dois? Porque estes dois twitters reflectem perfeitamente as duas pessoas por trás deles. E porque prova que o twitter não é apenas para ser random é para ser radom à maneira de cada um.

RA The Rugged Man versus Aesop Rock. Se não conhecessem já o trabalho destes dois gajos, o twitter de cada um dir-vos-ia tudo o que precisavam de saber.

Immortal Technique versus Frank Ocean. Aquilo que me admira no twitter do Immortal Technique é o quanto ele interage com os fãs, chegando mesmo a escrever grandes textos de 4 ou 5 tweets, que mesmo assim conseguem cativar os fãs e envolvê-los na discussão. Sabem porquê? Porque o Immortal sabe muito bem que fãs tem e para quem é que está interessado em falar. Por outro lado, o twitter do Frank Ocean consegue ser estupidamente minimalista e, ainda assim, ser reconhecível a quilómetros de distância.

E para não das só exemplos bons, deixo aqui dois exemplos de twitters que não me conseguiram cativar: Yogini (eu uso o twitter primordialmente no browser, e no browser as pics não abrem automaticamente, o que faz com que no meu feed só apareçam uma enorme lista de links) e Busta Rhymes (triliões de retweets e montes de posts sobre concertos nos EUA não chega para me despertar o interesse).


Conclusão: as redes sociais são uma ferramenta brutal, incomparável, o mIRC era brincadeira de meninos ao lado disto. Mas aprendam a trabalhar com cada uma das redes, aprendam a colocar conteúdo e a saber onde, e com que timming. Aprendam com os bons exemplos e com os maus exemplos. E diversifiquem. Não façam o mesmo que 500 outras pessoas porque dessa forma não se vão destacar de certeza.

C2C - O DJ é awesome!

Apercebi-me recentemente que há muita gente que não acompanha as competições do DMC e, portanto, não conhece algumas rotinas que eu considero clássicos.

Entre essas rotinas estão as do colectivo francês C2C, composto por quatro DJs, que ganhou o campeonato DMC quatro anos de seguida (2003 - 2006). Damn! Não é nada fácil!

Aqui ficam as rotinas com que os C2C se aprensentaram ao DMC nos anos em que foram vitoriosos. Para mim, é um dos melhores exemplos de como um grupo pode ser extremamente técnico e ao mesmo tempo extremamente musical e juntar supremacia técnica à adesão do público mais leigo.

2003


2004


2005


2006


Ouvi dizer que os C2C lançaram um álbum dia 3 de Setembro de 2012 (este ano, portanto). Alguém já ouviu? Is it any good?

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Jardim à Beira Mar Plantado

Nunca deixo de ficar surpreendida com a capacidade que os Mind da Gap têm de continuar a fazer boa música e mais relevante do que nunca. É por causa de músicas como esta que um concerto de Mind da Gap hoje em dia é só clássicos.



E para quem ainda não viu, o Rey fez este video em resposta a quem (como eu) teve pena de ele não ter entrado no videoclip (merecia...). Já falei com várias pessoas sobre isto e reafirmo aqui: o Rey é dos MCs mais underrated de sempre na tuga.

Como a maioria de vocês já sabe pelas redes sociais, recentemente mudei de país. Agora estou a viver e a trabalhar em Dublin, na Irlanda.

Por isso, Hip Hop Heads que andem por estas bandas, hit me up!

Ainda estou cá há pouco tempo e por isso ainda não deu para conhecer rap local. Mas! Já deu para descobrir que dia 11 de Outubro há cá um granda concerto de MF Doom! Só tenho pena que parte do concerto seja JJ Doom, que por acaso foi o projecto do Doom até agora que menos senti. A produção do JJ é um bocado iffy, é experimental como eu gosto mas não tão gostátil como costumam ser as produções experimentais. Quem me dera ver um concerto de Danger Doom, isso sim, passava-me!

Outros artistas que também vão estar por cá: Afrika Bambaataa, Beardyman (pena ser em Cork! *sniff*), Buck 65 e De La Soul. E o Immortal Technique também já confirmou o local do evento, só falta a data!

Espectacular ou quê? :D

Pelo que me parece desta avaliação preliminar, Dublin não é Paris ou Londres a nivel de Hip Hop mas também não é tão fraquito como em Portugal. É um meio-termo que me parece muito prometedor. Entretanto tenho de ver se começo a conhecer pessoal que curta rap por aqui, que ir a concertos sozinha não é o mais engraçado.

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Eu ia escrever mais um post na série Hip Hop 2.0, mas entretanto deu-me mais vontade de abordar o tema descrito no tópico, ou seja, como é que um MC se consegue tornar no maior douchebag de toda a história do rap.

Para vos dar um pouco de contexto, o Lord Finesse é aquilo que se pode considerar um dinossauro do rap. Produziu para grandes nomes como Notorious B.I.G e Big L, colaborou com Fatboy Slim e lançou três álbuns, o último dos quais, The Awakening, foi extremamente bem recebido em 1995.

Recentemente, um new comer chamado Mac Miller (que já praticamente toda a gente conhece), pegou no instrumental do hit "Hip 2 Da Game" do Lord Finesse e utilizou-o para uma mixtape lançada em conjunto com o DJ Jazzy Jeff.

Nada de novo, right? Desde a sua génese que os artistas de Hip Hop lançam mixtapes, de graça ou a pagantes, em que utilizam instrumentais de outros artistas para darem uma reviravolta à música e mostrarem o que valem sobre uma base que já é conhecida. O Mac Miller, tal como muitos outros artistas famosos e desconhecidos, catapultou-se do underground através da elaboração de mixtapes - várias - que distribuiu de graça na internet. Assim de repente, consigo-me lembrar dos seguintes artistas cujo primeiro ou último trabalho que ouvi foram mixtapes: Saigon, Royce da 5''9', Asher Roth, Prodigy, Raekwon, Nokas, Capicua, Mundo, ...(who am I kidding, todos os MCs da Tuga com mais de 6 anos de casa começaram nas mixtapes do Bomberjack, Cruzfader, 30 Paus, Kronic e afins!)... enfim. Para uma pequena amostra de quantas mixtapes são lançadas hoje em dia, ver por exemplo a secção de Mixtapes no HipHopDX. Vêem ali o Jadakiss, NORE, Stalley e Slum Village logo na primeira página? E também o próprio Mac Miller, claro.

Para iniciantes e veteranos, tanto no inicio do Hip Hop como agora, as mixtapes, os remixes e a re-utilização de instrumentais sempre foram uma parte estruturante da cultura Hip Hop. Estiveram lá no início quando era difícil arranjar os beats e estão cá agora como forma de manter os artistas relevantes e presentes no dia-a-dia dos ouvintes, para quem um álbum de 2 em 2 anos já não chega. É uma forma de promoção para quem é desconhecido e uma forma de exercitar os skills para quem já tem carreira. É algo tão intrínseco ao Hip Hop como o beatbox, escrever as letras em rimas, fazer scratch ou dizer "yo".

Posto isto, voltemos ao Lord Finesse.

Segundo o site Courthouse News Service, após o Mac Miller ter lançado a música "Kool Aid & Frozen Pizza", com uma letra completamente diferente mas usando o mesmo instrumental de "Hip 2 Da Game" (como é NORMAL desde o início dos raps!), o Lord Finesse decidiu processá-lo por plágio no valor de 10 milhões USD. Note-se: isto tendo em conta que o Mac Miller lançou o som numa mixtape que foi distribuída gratuitamente, pelo que ele não fez um único cêntimo com esta música.

Ora se isto não é um comportamento inaceitável no seio do movimento que tem a história que tem, não sei o que será.

Citando o site,

"Finesse says Miller has profited from the unauthorized use of his song." e " The $10 million lawsuit alleges copyright infringement, unfair competition, unjust enrichment, interference, deceptive trade practices, and a number of related state law claims." [um à parte: unfair competition? Unjust enrichment? Mas o Mac nem vendeu a mixtape!]

Ah e tal mas ele tem o direito de defender o seu trabalho, mesmo estando a espezinhar 30 anos de cultura Hip Hop (podem vocês dizer, porque eu cá continuo a ser anti-copyright como sempre). Okay, tudo bem. Então, pergunto-me se ele pagou a todos os artistas a quem roubou samples para produzir as suas músicas? Claro que não. Mas também ele lucrou e muito com o uso não autorizado da música de outras pessoas, violando copyrights, enriquecendo injustamente e tudo o resto de que ele acusa o Mac Miller. É muita falta de carácter. Tal como os artistas que se queixam dos downloads os fazem aos montes, também os artistas que se escondem atrás do copyright têm a alma a apodrecer em hipocrisia. Qualquer Hiphoppa que se preze, mesmo não curtindo o trabalho do Mac Miller, neste caso não pode ter quaisquer dúvidas de que lado deve ficar.

Mas se acham que o Lord Finesse quer é dinheiro e está a processar o Mac Miller simplesmente porque não tem talento para dar mais ao Hip Hop, enganam-se muito. É ego, mesmo. E o Lord Finesse não se fica por aqui.

Dan Bull, o rapper mais activista das internets, sempre atento e bem ao seu estilo, fez uma música, utilizando o mesmo instrumental ("Hip 2 da Game"), a criticar o escandaloso abuso das leis de copyright por parte do Lord Finesse e a defender o Mac Miller. Nessa música, o Dan Bull explica como o próprio Lord Finesse samplou a música de outro artista - "Dream of You", de Oscar Peterson Trio, incorrendo ele próprio no comportamento pelo qual está a processar o Mac Miller.

Que faz Finesse? Denuncia o vídeo ao youtube por copyright infringement, bloqueando a conta do Dan Bull. Tive a enorme sorte de ainda ir a tempo de ver o vídeo e devo dizer que é uma pena ter sido reportado porque explicava, em forma de música e com grande criatividade, toda esta situação.

Isto significa que a lei de copyright já está a ser usada não só de forma abusiva mas também para, inclusivamente, censurar vozes discordantes.

Vendo-se censurado, o próprio Dan Bull decidiu fazer outro vídeo, onde explica o que lhe aconteceu e como o Lord Finesse o censurou só a ele, quando no youtube continuam muitos outros vídeos fazendo "uso não autorizado" dos trabalhos dele. Vale muito a pena ver, até porque o Dan Bull faz uma pequena review da história da reutilização de material existente no Hip Hop, incluindo as mixtapes:



No final do vídeo, o Dan Bull incentiva toda a gente a fazer o seu próprio vídeo de crítica sobre este assunto, algo que já começou a acontecer: Oscar Peterson Thing.

Cada um faz o juízo que bem entender desta situação, pessoalmente penso que é extremamente triste da parte de um cat tão oldschool ter uma atitude vergonhosa destas e é um pouco assustador ver até onde é que a lei de copyright pode ir nas mãos de quem pretende censurar. Por outro lado, admiro imenso pessoas como o Dan Bull que, mesmo tendo medo das possíveis consequências, não se calam e lutam pelos seus direitos, incentivando os outros a fazer o mesmo.

Boa sorte para o Mac Miller. Bonito, bonito, era se o Lord Finesse ganhasse o processo, ser processado a seguir pelo Oscar Peterson. Poetic Justice!

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