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Entrevista a Immortal Technique

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Já está online a minha entrevista a Immortal Technique, por ocasião da sua vinda ao Hard Club.

Foi, sem qualquer dúvida, um grande privilégio entrevistá-lo e só tive pena de não poder debater algumas ideias com ele. Muito obrigada à Rita G Bookings pela oportunidade e à Yellow Stripe pela orgnização do evento.

English version - Interview with Immortal Technique  )

Aesop Rock - Zero Dark Thirty

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Aesop Rock cultiva mais um pouco do seu aspecto de sem abrigo e aproveita para fazer o videoclip do seu próximo álbum, "Skelethon".



Já agora, convido-vos a visitar o site do Aesop Rock. É giro passar o rato por cima do título, mas menos giro se tivermos em conta os dois episódios do Skelethon disponíveis no site.

Será que vão fazer posters da capa do Skelethon? Isso é que era.

Crónica do concerto de Immortal Technique

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Nokas - Manutenção

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Nokas (a.k.a. Infinito)
Mixtape Manutenção
2009


Nokas, membro efectivo do grupo nortenho LCR (a par com Berna e D.One), lançou em 2009 a mixtape Manutenção. Por algum motivo, esta mixtape passou-me ao lado até muito recentemente, pelo que mal pude acreditar quando me apercebi que este trabalho já tinha quase 3 anos.

"Manutenção" é um autêntico blast from the past. Não quero com isto dizer que o Nokas soa igual a quando começou. Nada disso. O que quero dizer é que esta mixtape transpira aquele sentimento de qualquer hiphoppa quando punha os pés nos concertos do antigo Hard Club, quando este ainda estava do outro lado do rio. Aquela sensação de agarrar nas mãos um CD do qual só se tinham feito 500 cópias. Aquele conhecimento de que fazíamos parte de algo muito pequeno mas, ao mesmo tempo, muito maior do que nós. Algo único e especial.

É que nas suas letras Nokas ressuscita o feeling de se ser hiphoppa, os valores e ideais que hoje em dia parecem completamente perdidos. Mas não para o Nokas. Para o Nokas, o tempo passa, o skill actualiza-se e evolui mas os valores e o sentimento permanencem.

A primeira coisa de que nos apercebemos quando pômos esta mixtape a tocar é que está repleta de instrumentais muito bem escolhidos. E todos eles são tão adequados ao timbre e flow do Nokas que, não fosse já os conhecermos das músicas originais, poderíamos muito bem pensar que tinham sido feitos de propósito para o MC, tal é o à-vontade dele nos beats. E a segunda coisa que nos vem à cabeça no fim da primeira audição é: porque é que o Nokas só fez 6 músicas?!

Bem, uma coisa é certa, o facto de serem apenas 6 faixas ajuda-nos a escutar e interiorizar muito melhor as letras, visto que em vez de ouvirmos uma única vez 15 tracks, ouvimos três vezes estas 6.

1 - Pacto

A uma média de pelo menos uma música por cada MC sobre o que o Hip Hop significa para si, e estimando cerca de 500 MCs tugas que fazem ou já fizeram rap, podemos supor a existência de pelo menos 500 músicas sobre o mesmo assunto. Seria de esperar que hoje em dia não houvesse nada a acrescentar, e na maioria dos casos, isso é verdade. Mas o que Nokas nos traz nesta "Pacto" é mais do que isso: é uma mistura do recall da sua postura no rap com crítica à falta de raízes da maioria dos rappers de hoje em dia. Que melhor escolha para comunicar esta mensagem do que um beat do Pete Rock? Não há como não concordar com tudo o que ele diz, pois quem está cá há mais do que meia dúzia de meses sabe que "Ninguém me tira isto, aconteça o que acontecer / declara o meu óbito no dia em que deixar de escrever". E para quem está cá há uma mão cheia de anos, esta resume todas as nossas frustrações: "Acordem e procurem uma mensagem relevante / não sintam orgulho quando se empenham em ser ignorantes". Quantas vezes já ouviram new comers a dizer, cheios de orgulho, "eu cá só ouço rap da nova escola"? Não admira que tenhamos uma nova geração de rappers convencida que o mais importante numa música é ter multies. Nokas diz, e bem, que é "rápido a cuspir, mas lento a redigir / procuro sempre a melhor frase para me poder exprimir". Depressa e bem, não há quem.

2 - Espiritualidade e Êxodo

É com 9th Wonder que Nokas se aventura para dentro de si próprio, tocando ao de leve mas com precisão em várias temáticas que se consideram fundamentais para a formação de uma alma humana. "Cultivo valores sem dogmas e morais sem religião", "Bíblia? Eu tenho a minha, sem serpentes nem maçãs / sem árvores amaldiçoadas ou mulheres condenadas / auto-didacta, a vida é que me indica as coordenadas" são algumas das passagens em que Nokas explica a diferença entre espiritualidade e religião. Muitas vezes os valores seculares são desprezados por se considerar que só a religião pode ser a nossa bússula para o que é certo e errado, bom ou mau, desejável ou censurável. Mas isso não é verdade, e já foi argumentado várias vezes (se tiverem curiosidade, vejam este vídeo de Sam Harris - Science Can Answer Moral Questions). E mesmo no capítulo da introspecção e crescimento pessoal, mais uma vez existem outros caminhos para estabelecer a ligação entre o indivíduo e o divino "Preciso de mais árvores e de menos pessoas / menos conversas ocas e mais pensamentos profundos como lagoas". E para terminar em grande, Nokas lembra-nos que "sempre foi assim" não é justificação suficiente para os nossos comportamentos e crenças actuais. "Renascem em mim alguns instintos adormecidos / que colocam em questão rotinas e hábitos citadinos / caminhos pré-definidos por valores estabelecidos / convenções sociais de pais e amigos". Hábito e tradição podem explicar porque é que somos como somos, mas não pode servir de desculpa para não mudarmos.

3 - Não preciso
À terceira faixa chega a vez de Statik Selectah tomar o seu lugar nos instrumentais e Nokas debruça-se sobre o caminho que pretende tomar no Hip Hop. Começa logo por estabelecer que a escrita é a única coisa de que precisa e que se fodam os álbuns, os concertos e o movimento. E à medida que a música avança, começamos a perceber porquê - as intrigas e as deturpações consumiram o Hip Hop a partir de dentro: "MCs têm beefs, MCs fazem disses / estes MCs precisam é de uns kisses" (não podia concordar mais), "MCs não conhecem músicas nem letras / conhecem-te de comentários que só lhes metem merda nas cabeças". E isto acontece cada vez mais porque "MCs querem competição, não querem criação / e tornam-se todos iguais no meio da confusão". A partir do momento em que os MCs se começam a focar em fazer a provocação / responder à provocação / etc., a motivação para fazer música começa a girar à volta dessa situações ao invés de ser um processo de auto-melhoria e de estabelecimento de um estilo próprio, de afirmação de mérito próprio. Por isso é que o Nokas, à semelhança de tantos outros MCs, prefere isolar-se: "prefiro a partilha, mas se esta não é possível, eu mantenho-me na minha".

4 - Loucura
Conseguem pensar num instrumental melhor para escrever sobre insanidade mental do que um produzido pelo El-P? Pois, eu também não. Esta música é escrita do ponto de vista de um internado no Magalhães Lemos (hospital psiquiátrico) que vai relatando como é que se alienou do mundo. Um pouco como Gil Vicente usava a figura do 'parvo' para dizer as verdades incómodas nas suas peças, Nokas veste a pele de um esquizofrénico para dar luz ao nonsense que está entranhado no nosso quotidiano e, por isso mesmo, não somos capazes de reconhecer como tal. "Neste sistema não encaixo / onde cada recursos é manipulado para ser escasso / dinheiro é dívida inflacionado na tua rotina suicida para tentares alcançar o custo de vida" é apenas o início do desenrolar da quantidade de irracionalidades que permeiam a nossa vida, aquilo que elegemos como objectivos pessoais e as medidas com que medimos os nossos sucessos. Nokas tells it like it is.

5 - Infitino
Evidence providencia o beat para um som que nos traz o verdadeiro espírito do Hip Hop antes da sua explosão. Há uma rima em particular neste som que eu gostava de destacar: "antes de ser praticante, eu sou fiel ouvinte / eterno seguidor da mensagem que o Hip Hop transmite". Houvesse mais gente com a mesma filosofia e o movimento das quatro vertentes já não pareceriam "quatro movimentos diferentes". Mais uma música em que Nokas demonstra verdadeiro knowledge como já pouco se vê hoje em dia.

6 - Influências

"Influências" é a derradeira faixa deste EP e, talvez, a minha favorita. Não por ser especialmente melhor que as outras, mas pela mensagem e conteúdo transmitidos sobre mais um beat de Evidence. Nokas nomeia um rol de influências nas mais variadas áreas do conhecimento , desde escritores a actores, nas várias áreas da sátira, espiritualismo e activismo. A segunda parte da música, essa, é toda dedicada ao melhor que o rap tem para dar. Se há algum MC ou grupo que não conheçam neste trecho, têm mesmo de ir procurar e ouvir. A grande importância deste música, na minha óptica, advém do facto de Nokas partilhar conhecimento com os seus ouvintes, incentivá-los a ir mais longe na forma como vêem o mundo.

Aqui fica a lista das obras mencionadas na primeira parte da música para quem tiver curiosidade )

Talvez esta mixtape tenha especial significado para mim porque comecei a ouvir rap em 2000 e durante muitos anos, não conheci ninguém do Hip Hop em Lisboa. Diria que só comecei a ir a concertos e conviver com pessoal do movimento em Lisboa depois de 2005. Mas penso que, mesmo pondo de parte essa componente algo subjectiva da minha opinião, este é um dos melhores trabalhos que ouvi nos últimos tempos. Aplica-se a Nokas a rima de Blueprint "No breaks, no hooks, no punchlines, no similes so I’m easy to overlook". Claro que todos apreciamos um flow espectacular e umas barras cheias de multies, mas dêem-me um mc com conteúdo a sério e dispenso os malabarismos no flow e na métrica. Este é um MC de knowledge como há poucos porque hoje em dia a maioria dos rappers também não tem knowledge para partilhar logo à partida.

Não me coíbo nadinha de, com base neste trabalho, nomear Nokas um futuro KRS-ONE tuga.

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Projecto Transformers no Porto

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Para quem não segue com muita atenção este blog, poderá ter-vos passado ao lado este projecto. Ora o que são estes Transformers?

Os Transformers são um grupo de jovens que quer fazer a diferença na sua sociedade através dos talentos que têm, nomeadamente rap, breakdance, graffiti mas também fotografia, futebol, teatro... you name it! Se tens um talento e achas que podes fazer a diferença através dele, sem dúvida que o teu lugar é nos Transformers. Nomes como Safari (In Motion), MC ERRE, Speedy (In Motion) e Xikano (12 Makakos)

Para mais esclarecimentos, fica aqui o teaser:

SOMOS PLAN PORTUGAL - TRANSFORMERS PROJECT from SOMOS PLAN on Vimeo.



Qual é a grande novidade hoje? O projecto Transformers vai para o Porto!


O Transformers vai ser lançado este ano na cidade Invicta do Porto naquela que vai ser a primeira tentativa de levar a essência e filosofia deste movimento além Lisboa! E precisamos de ti transformer!

Gostavas de saber como o projecto funciona e como podes envolver-te no nascimento no movimento Transformers no Porto?

Tens a tua oportunidade na terça-feira (dia 3 de Abril) às 18h no Hub Porto!
- Localização Hub Porto: http://porto.the-hub.net/public/contact.html

O objectivo será o de estabelecer uma rede de pessoas e entidades na qual o crescimento do movimento transformers possa estar ancorado e vai incluir uma apresentação fresca, inovadora e original do:

1. Modelo de Impacto Social do Projecto Transformers
2. Uma Discussão da Estratégia de Crescimento
3. Próximos passos

Assim, esta sessão destina-se a:

- pessoas que gostavam de fazer parte da equipa de gestão e coordenação do Transformers no Porto;
- instituições ou empresas com interesse em trabalhar com o Transformers no decorrer do próximo ano letivo;
- artistas, desportistas, amantes da cultura urbana e da Cultura Hip-Hop em todas as suas vertentes interessados em serem futuros mentores transformers;
- interessados em empreendedorismo social ou em conhecer o modelo de impacto social do transformers
- a malta de qualquer idade, desde jovens do ensino secundário a profissionais no terreno, de qualquer ramo de estudo, desde aqueles que ainda não tiraram a licenciatura tiraram aos que já têm o seu canudo, com a paixão de transformar jovens em transformers


Qualquer coisa podes contactar-nos através dos emails inesmurteira@projectotransformers.org ou joaobrites@projectotransformers.org.


Esperamos conhecer-te na terça! Aparece! Já somos 230 transformers, espalha a palavra e bora ser ser 100.000!


De que estão à espera Hiphoppas?

From Nicolau With Love

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Decidi escrever este post por descargo de consciência. Regra geral, considero importante não ligar quando os artistas pensam que aquilo que escrevo tem motivações negativas; que quando a opinião não é positiva, é porque quero prejudicar alguém. Isso nunca aconteceu. Nada do que escrevo tem por base algum problema pessoal, a minha análise da música está isolada da pessoa que a faz. Tanto assim é que 70% do que escrevo é sobre artistas que não conheço de lado nenhum. O único motivo pelo qual escrevo sobre rap é porque gosto de reflectir sobre a música e a cultura, e como qualquer apreciador de Hip Hop, tenho gostos próprios, que às vezes coincidem com os trabalhos dos artistas e outras não. E quando não coincidem, normalmente procuro fundamentar porquê.

Mas neste caso, decidi abrir uma excepção à minha política de "ignorar ataques pessoais". É que depois de ouvir o som do Player em resposta ao Haka, tornou-se claro para mim que a culpa do som ter ficado assim é, pelo menos em parte, minha. No meu post anterior sobre o assunto, falei sobre as falhas do som "Não É Equívoco" enquanto som de beef, a saber: dicas generalistas e punchlines "estranhas" ou não enquadradas no som. E para ilustrar como se podem colmatar estas falhas, puxei o beef de que tinha falado antes, o do Nerve/X-Tense, porque foi de facto um beef bom.

Mas acho que não me expliquei muito bem, porque neste "Háká Beef" (ou será "Haka e Nicolau Diss"? Ou "Hakabou"? Não sei como é que ainda há quem diga que o Player tem imensos sons por lançar, só em 2 dias lançou três!) o Player não só não corrigiu os aspectos que mencionei, como foi estragar os aspectos positivos do som anterior - tudo isto, com valentes doses de "inspiração" no beef do Nerve/X-Tense. Se calhar devia ter escrito um disclaimer: "menção a outros MCs meramente ilustrativa".

Antes de proceder à análise detalhada do som, importa ressalvar que esta é a minha opinião sobre o som. E para quem não se sentir confortável com a minha opinião, deixo-vos este grande conselho de uma pessoa muito sábia no rap tuga:



Asseguro-vos já que não escrevo para ofender, mas se ainda assim se sentirem ofendidos com a minha opinião, este parece-me um excelente conselho:



Passemos então à análise do som.

Continuar a ler - Possível TL;DR )

Apresentação do álbum de Capicua @ ZdB

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Blueprint - Adventures in Counter-Culture

cant hear you over how awesome i am


Blueprint
Adventures in Counter-Culture
Rhymesayers (Abril 2011)


Blueprint é uma presença quase constante no meu dia-a-dia. Desde que ouvi os seus primeiros álbuns, quer a solo, quer em Soul Position, nunca deixei de o seguir, mesmo quando "Things Go Better" me desiludiu profundamente. O facto de o seguir no twitter e no seu website oficial providencia-me com provas suficientes que o Blueprint de "Culumbus or Bust", "1988", "Chamber Music", "8 Million Stories","The Weigthroom" e "Unlimited" continua vivo e de boa saúde, ainda que os trabalhos mais recentes não o tenham demonstrado.

Este "Adventures in Counter-Culture" tem uma história longa e provavelmente já do conhecimento de toda a gente. O álbum já estava concluído e pronto para edição quando o MC foi informado que tinha usado samples sujeitos a copyright, pelos quais seria certamente processado. Assim, Blueprint teve de voltar à estaca zero, removendo e substituindo todos os samples com copyright.

Sabendo que isto aconteceu a "Adventures in Counter-Culture", não pude deixar de ter esse factor em conta quando a produção do álbum não encaixou na perfeição logo à primeira audição. Não tendo ouvido as versões originais dos instrumentais, suponho que nunca saberei se esta sonoridade foi intencional logo desde o início ou se foi apenas um acidente de percurso. Das reviews que li pela internet, uns consideram que Blueprint se está a expandir para novas audiências enquanto outros dizem que Blueprint parece perdido naquilo que realmente quer fazer.

No geral, este é um álbum que contém várias músicas de que gosto bastante. Mas frequentemente há um synth ou um instrumento ou um sample que me soa fora do lugar, mal enquadrado no resto do instrumental. E às vezes é o próprio Blueprint que me soa fora do lugar, como em "Automatic": it's hard enough making hard work seem effortless". Embora seja um chavão que calha sempre bem... não me parece que se aplique a este álbum. Na verdade, soa a um esforço hercúleo que não tenho a certeza de ter resultado na sua totalidade.

Assim sendo, vale a pena comentar as faixas uma a uma.

1 - Five Years Ago
É aquela faixa de intro que só se ouve uma vez e depois se apaga do álbum

2 - Go Hard or Go Home
Esta é uma das faixas que mais me soa a má combinação de elementos. Detesto os synths e os sonzinhos, com as suas melodias que não têm melodia nenhuma. Também considero uma das faixas onde o Blueprint tem pior flow e pior escrita, deixando-se arrastar pela batida que soa demasiado lenta. A única dica que sobressai é "my perfect day is to make a beat, then have sex".

3 - Automatic
À semelhança do som anterior, também esta faixa tem uma batida a tender para o lento. No entanto, talvez a combinação mais feliz de outros samples tenha inspirado uma melhor performance de Blueprint. O flow e as rimas estão bem melhor do que na faixa anterior. Apesar da minha citação anterior desta faixa, é também aqui que se encontra uma daquelas dicas à Blueprint que fazem valer a pena: "Trying to make a soft-synth sound like a sample / Cause everybody want your progress to seem more gradual". Enquanto blogger, tenho de reconhecer a veracidade desta afirmação. É pena o irritante auto-tune, que é mesmo, mesmo muito irritante. Outra dica que talvez mereça destaque é "Like a born again / everything about me is clean / time to explore again / the music is a series of streams", o que de facto explica muito o feeling de "desconjuntado" neste álbum.

4 - Keep Bouncing
O sample vocal do "keep dancing" é giro, mas a batida parece não ter mesmo nada a ver com o resto dos elementos. E a escrita do Blueprint é demasiado reminiscente do fail de "Things Go Better" para eu conseguir curtir. Blueprint, pimp egotrip não é bem contigo.

5 - Wanna Be Like You
Ora este é um dos tais sons que faz este álbum valer a pena, apesar dos pequenos sons a lembrar um jogo de plataformas no início da música. Mas assim que entra a batida, o som fica perfeito. Até o falsete do Blueprint soa bem! O conceito da música em si é genial e a forma como ele aborda o tema é clássico Blueprint. A dinâmica desta música é bastante interessante porque vai progredindo através de instrumentos (fade out de uns, entrada de outros, como por exemplo as guitarras), o que faz com que não seja apenas a letra a contar a história. Tudo culmina em "Our world doesn’t move / til we hear what you say / we wanna be like you / with all your fame and wealth / Cause if we can’t be you / we’ll have to be ourselves". O resto da letra dá uma conclusão engraçada à música, mas na minha mente a letra termina aqui, porque toca naquele ponto crítico em que todos nós vivemos fascinados com as vidas de outras pessoas, não necessariamente famosos, mas que consideramos mais interessantes que nós, porque afinal de contas, ser normal e medíocre é uma seca.

6 - My culture
Outro dos sons fantásticos deste álbum. Como "Wanna Be Like You", esta faixa regista uma progressão, só que feita de instrumentos e letra em partes iguais. Blueprint dedica esta faixa a desfiar a quantidade de artistas de Hip Hop ou relacionados que foram "limpos" a sangue frio. No fim de contas, morreram pela sua cultura, pela cultura Hip Hop, mas como o próprio Blueprint conclui numa tirada de cordas vocais de meter respeito "WHO THE FUCK WANT TO DIE FOR THEIR CULTURE?!" Com esta faixa podemos concluir que não importa o quanto Blueprint queira explorar outras paragens, o Hip Hop é a sua casa.

7 - Mind, Body and Soul
Até ao minuto 1:06, dispensava-se o encher chouriços. A partir do minuto 1:06, dispensava-se o refrão horrível cheio de auto-tune. Exceptuando isso, é um dos instrumentais que melhor sobreviveu a esta fase experimentalista do Blueprint e a letra é das minhas absolutamente favoritas. Blueprint descreve a sua relação com a música, em termos simples, honestos e profundamente sentidos, com que todos nós nos podemos identificar. "It's in stores, but it ain't something you could buy / The way it make you feel, you wanna feel until you die".

8 - So Alive
Este álbum anda todo aos pares. Também este instrumental foi dos que melhor resultou das aventuras de Blueprint, e nem que o Blueprint estivesse a falar sob o efeito de psicotrópicos, esta música ia soar sempre bem. A letra em si é engraçada ainda que não genial. Parece-me demasiado séria e semi-interventiva para este instrumental, mas passa.

9 - Stole Our Yesterday
Não sei qual é a cena do Blueprint e instrumentais com ritmo de balada, mas sem dúvida que é a cena dele neste álbum. Até gosto do instrumental cantarolado desta faixa mas o flow mortiço e a métrica errática do Blueprint neste som faz com que não consiga prestar atenção nenhuma ao que ele está a dizer. É qualquer coisa sobre as agruras da vida.

10 - Radio-Inactive
Podemos colocar esta faixa junto a "Wanna Be Like You" e "My Culture" no grupo das tracks com progressão, e sem qualquer dúvida que esta é a rainha delas todas. Mal o piano entra, já estamos sugados para dentro do ambiente da música e do instrumental. Começa compassado, mas poderoso e Blueprint entra logo de começo em sinergia com o instrumental em flow, métrica e letra. É, se calhar, a minha música favorita deste álbum todo. Acho também que é a letra que soa mais genuína e em maior concordância com aquilo que vejo o Blueprint dizer no twitter e no blog no dia-a-dia, há partes da letra em que ele rima com tanta intensidade que parece que está a arrancar cada palavra ao fundo da alma. " 'Make it more commercial 'Print, you prolly would sell more' / But I'm EATING NOW / So I'm like, what THE HELL for?! / Telling me to change only makes me rebel MORE", "I made this in my basement when you wasn't even there / to express my feelings, not be played on the air / so am I wrong or secure if I really don't care?"

"I write my album on my sidekick
No paper, no notebooks, then rhyme for five minutes straight
No breaks, no hooks, no punchlines, no similes
so I’m easy to overlook

But Grooveshack, Theives World, Expo, Scribblejam
I been around in every single era and I’m still the man
And while I may not get the same hype as the next man
Everything in my life is going according to his plan
So thank God for every fan, every single listener
Who told me to make the art, you don’t gotta switch it up
You put it out, we’ll pick it up
Do you, stay strong
Cause you’re the main reason we don’t turn our radios on."

Esta merecia ser toda citada.

11 - Welcome Home
Tenho quase a certeza que esta foi samplada do Ocean's 13. Aquele com o francês. O instrumental faz-me lembrar o Blueprint de antigamente na produção, o que só pode ser um bom sinal, mas depois a faixa é toda cantada, o que já não faz tanto o meu estilo, até porque me parece que o Blueprint não tem assim demasiado jeito para cantar. Mas a música é bastante agradável.

12 - Fly Away
Detesto o instrumental desta música pelo que me limito a saltá-la.

13 - The Clouds
Esta também não me diz nada, nem letra nem instrumental, pelo que também a salto sempre.

14 - Rise & Fall
Para compensar, a única coisa que não gosto nesta música é o refrão. Porque o instrumental? Brutalíssimo. Lembro-me de ler algures que um instrumental só precisa de violinos para se tornar clássico, se calhar é mesmo verdade. Flow ao nível do beat ainda que um pouco repetitivo, mas gosto do storytelling, bem à Blueprint do 8-Million Stories.

15 - The Other Side
Não percebo qual é a necessidade de fazer uma transição da "Rise & Fall" para esta faixa e chateia-me que essa transição exista porque de cada vez que estou a ouvir a "Rise & Fall", que adoro, parece que sou "aldrabada" a ouvir a faixa seguinte, de que não gosto nem por nada: nem o instrumental, nem a cantoria, nem coisa nenhuma. O mais provável é apagar a música do álbum para não estragar a experiência da música anterior.

Em conclusão: do meu ponto de vista de ouvinte, este é um álbum cheio de altos e baixos, com músicas de que gosto mesmo muito e outras com as quais não posso. Em algumas faixas não percebo o que é que Blueprint está a tentar fazer e noutras ponho a questão de lado porque parece resultar bem. Se esta desarticulação de samples e synths resulta da tal reformulação do álbum por causa do copyright ou se é o Blueprint a seguir as pegadas do RJD2 para brincar às casinhas a nível musical, nunca saberei. O que eu sei é que este álbum tem faixas com letras e instrumentais suficientes que me agradem (mesmo à tangente) para me manter interessada no futuro trabalho de Blueprint.

EDIT: Pelos vistos o Blueprint decidiu lançar um livro sobre o Making of Adventures in Counter-Culture. Damn. Tou super curiosa apesar de nem sequer ter adorado o álbum.

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Provavalmente, uma das colaboração mais win deste ano. Tudo nesta track é espectacular, desde as vozes ao instrumental. Uma track viciante, com uma contraparte de 13 minutos (!!), que podem ver abaixo:

Freestyle: A Style of Life

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Freestyle: a style of life from Pedro Gomes on Vimeo.



Um documentário sobre freetyle / improviso no Brasil. Vale muito a pena ver e faz-nos compreender que esta é uma das maiores falhas do rap nacional: um mc expert em improviso ainda não consegue ter o protagonismo que merecia dada a falta de eventos de freestyle battle com credibilidade e "pesos pesados" suficientes.

Beefs - State of the Art

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Não é meu hábito escrever sobre beefs. Aliás, a maioria dos beefs tem subjacente nada mais do que pequenos desentendimentos da net ou assuntos semelhantes largamente irrelevantes para os ouvintes em geral, e é por isso que a generalidade dos beefs tem autores desconhecidos e se fica pelos fóruns.

No entanto, há excepções.

Nerve vs X-Tense

O último beef que me captou realmente a atenção foi o já lendário beef entre o Nerve e o X-Tense, que paralelamente envolveu também o Haka e o Blasph. É capaz de ser interessante analisar o que é que esta sequência de sons teve que a maioria dos beefs não tem e o que é que fez dele um beef lendário.

A primeira coisa que este beef teve de marcante, na minha óptica, foi envolver dois MCs extremamente à vontade no microfone e com uma escrita acima da média. Os estilos individuais do Nerve e do X-Tense diferiam na altura como diferem agora mas o skill que ambos tinham tornou o confronto uma disputa entre dois MCs igualmente capazes de dizer o que queriam e da forma que queriam.

Em segundo lugar, há que notar que ambos os MCs acertaram em cheio nos pontos fracos um do outro, ou antes, naquilo que o público em geral percepciona como sendo pontos fracos. O Nerve pôs o dedo em todas as feridas do percurso musical do X-Tense, incluindo o álbum que não saiu pela Matarroa e o suposto abandono do rap, e o X-Tense repescou as supostas similitudes ao Eyedea e respondeu às dicas todas, uma a uma. E o mais interessante é que nenhum deles se limitou a mandar postas de pescada para o ar. Há ali dicas que além de muito bem escolhidas, foram muito bem pensadas, de modo que cada um dos sons tem verdades suficientes e rimas suficientemente trabalhadas para além de serem beefs engraçados, serem sons que uma pessoa curte ouvir mesmo sem contar com o beef. São músicas bem feitas.

No seguimento disso mesmo, e em terceiro lugar, os sons foram montados para cada dica ter significado, incluindo os refrões, os efeitos sonoros, os samples e os próprios beats. E nada ficou por responder, o que fez com que o beef tivesse resultado em algo que eu chamaria “empate técnico” porque de facto estiveram os dois muito bem. À dica do Nerve “o meu álbum vai sair e o teu não” o X-Tense respondeu com o argumento inegável de que muitos álbums maus também saíram; à dica do X-Tense que o Nerve bytou o Eyedea o Nerve contrapôs com o byte do X-Tense o Eminem. Evidentemente que não concordo que qualquer dos dois byte qualquer dos MCs mencionados, mas havia gente suficiente para aí inclinada para fazer as dicas funcionarem. Aliás, todos os assuntos abordados eram do conhecimento geral, e se não eram, ambos os MCs foram capazes de dar contexto suficiente para o ouvinte ficar a par, o que tornou o beef, acima de tudo, numa boa competição de skills.

Aqui ficam os links para quem já não se lembra.

Nerve - 55b
Nerve - A Chapada
X-Tense - Fósforo + Tu Das Palavras Não Rimas Népia (não encontrei os sons separados)

A nível de rap tuga, acho que este é o beef mais bem conseguido de sempre, por todos os motivos acima mencionados.

Valete e Cristologia

Aqui achei por bem não colocar “versus” porque não acredito sinceramente que o Valete tenha feito o som "Bolas e Consciência" para o Cristologia, como alguns parecem achar.

A julgar pelo post acima linkado, a impressão com que fico é que foi o Cristologia quem elegeu o Valete como o antagonista de tudo aquilo que ele defende a nível religioso e o “persegue” com sons como se de “direito ao contraditório” se tratasse. Portanto, se alguém aqui está na posição de ataque, muito certamente não é o Valete. Isto aliás parece-me um remake do “beef” entre o Pródigo e o SP, em que o SP aproveitava todas e quaisquer oportunidades para falar do Pródigo, e o Pródigo levava mais a sério o mugir de uma vaca do que as dicas do SP.

Neste caso, nem sequer estou certa que o Valete acompanhe aquilo que o Cristologia faz.

Mas vamos por partes.

Nenhum beef que valha a pena precisa, antes de mais, de ser explicado. Um beef, na minha opinião, tem de ser abertamente assumido, como no caso do Nerve e do X-Tense. Não tem nada a ver com haver ódio envolvido ou whatever, mas a ideia é ser claro que estão a falar um para o outro, caso contrário, é apenas mais um caso de “caça-fantasmas” em que o som se pode aplicar a todos e a ninguém em particular. E só o facto de ser preciso escrever um artigo para desenterrar os dois ou três pormenores do som que, com muito esforço e imaginação, se podem considerar como dicas extremamente indirectas e vagas, já tira a credibilidade toda à tese de que é um beef.

E depois, considere-se os argumentos apresentados. Um deles refere uma entrevista que o Cristologia deu ao Gang do Moinho. Diz “2- Cristologia fez 1 música com o nome “Monogamia e Revelação”, em que mostra uma discórdia, e o lado oposto da opinião do Valete nessas músicas (mas sem entrar em “beefs”)”. Ora eu duvido muito que o Valete veja quer entrevistas do Cristologia, quer o Gang do Moinho. Mas de qualquer das formas, fui ouvir a explicação do Cristologia para ter dado o nome “Monogamia & Revelação” ao tal som e… nada bate certo. O Cristologia diz que o som não é para o Valete e que até tinha pensado noutro nome, só que esse seu som abordava os mesmos temas que “Monogamia” e “Revelação”, mas de uma perspectiva diferente, e portanto chamou-lhe “Monogamia e Revelação”. Eu dei-me ao trabalho de ouvir os três sons de seguida e não é bem assim. O som “Monogamia” é uma personificação da mentira (primeira parte) e discurso na terceira pessoa dirigido à mentira, personificando a verdade (na segunda parte), e o som “Revelação” é sobre a existência (ou não) de Deus, e depois dá uma reviravolta e utiliza o mesmo racional que a religião usa para Deus, só que para o Diabo. Já o som “Monogamia e Revelação” fala maioritariamente sobre sociedades secretas e conspirações para dominar o mundo, tema este que Valete não aborda em nenhum dos outros sons; e depois fala também da sua religião e de Jesus. Portanto, o único tema em comum é unicamente a religião. Mas todos os sons do Cristologia são sobre a sua religião. Assim sendo, a bom rigor, todos os sons do Cristologia se deviam chamar “Monogamia e Revelação”.

Outro argumento é que numa das suas músicas Cristologia “’critica aqueles que dizem ‘O Homem é aquele que tem colhões’”. Ora eu tentei ir ouvir esta música para ouvir EXACTAMENTE o que é que o Cristologia diz, mas uma pesquisa no youtube por “Cristologia + suplicando a deus” não me devolveu nada. Uma pesquisa por “Cristologia” só devolveu-me várias músicas dele entre outros vídeos, mas até à página 3 não apareceu a referida “Suplicando a Deus”. A página de artista do Cristologia no facebook também não ofereceu mais informação. Também é de notar que o próprio site do Gang Do Moinho não providenciou link para a música “Suplicando a Deus”, apesar de ter colocado link para as outras músicas do Cristologia que referiu. Portanto, daqui resulta que a) o Valete deve ter tido muito mais paciência que eu para procurar músicas do Cristologia para ter encontrado esta “Suplicando a Deus” e; b) a tal crítica do Cristologia ao homem ser aquele que tem colhões não pôde ser confirmada. EDIT: Entretanto enviaram-me a referida música e pude confirmar que o Cristologia diz, mais ou menos a meio da música "e depois ainda dizem que homens são aqueles que têm colhões". Veracidade anatómica à parte, continuo com sérias dúvidas que tenha sido aqui que o Valete veio buscar a ideia para o tema ou que lhe estivesse a fazer referência directamente.

Por fim, o facto de Cristologia ser rastafári e cristão ao mesmo tempo, facto que Valete refere, apontando a aparente falta de profundidade e compreensão na adopção das duas filosofias de vida, e que Cristologia diz ser dirigido a ele. Duvido muito que Cristologia seja o único auto-proclamado rastafári que também é cristão, mas de todos os argumentos apresentados, este pareceu-me o único com o mínimo de adesão à realidade.

No ponto sete podemos ler “7- Entre muitos outros pormenores, que não valem a pena referir, para não alimentar nenhum beef.”, o que é interessante, tendo em conta que Cristologia fez logo a seguir um som a responder.

Agora, colocando de parte a fraca fundamentação acima referida, nada impedia o Cristologia de fazer um som a contrapor o ponto de vista do Valete, fosse ele dirigido ao Cristologia ou não. Os MCs têm pontos de vista suficientemente divergentes para tornar o debate de ideias em forma de rap interessante e empolgante.

Mas quando vamos a ver o que é o Cristologia fez em resposta, vemos isto:



Está tudo errado neste som. Para começar, Cristologia rima como se estivesse a tentar tirar um baú de cima do roupeiro, com um esforço e um arrastar do flow que simplesmente não se compreende e cansa o ouvinte só de escutar. E depois, nada do que ele diz contradiz os argumentos de Valete de forma alguma! Todas as incoerências que Valete aponta à religião, não só no som “Bolas e Consciência” como nos outros sons sobre o mesmo tema, continuam totalmente por responder da parte de Cristologia. Na verdade, pelas rimas do Cristologia a ideia com que fico é que ele não percebeu nada do que o Valete disse. Dava um outro post inteiro analisar as rimas do Valete uma a uma e contrapor as não-respostas do Cristologia, mas a título de exemplo, vou pegar na primeira.

Valete diz “Mas não sabes nada de Cristianismo, só segues o estúpido do pedantismo do Catolicismo”. Com isto Valete quer dizer que Cristianismo e Catolicismo são coisas distintas. Cristianismo é baseado no exemplo da vida de Jesus, o Catolicismo, citando a wikipedia, é “usado geralmente para uma experiência específica do cristianismo compartilhada por cristãos que vivem em comunhão com a Igreja de Roma”. Quer isto dizer que a religião Católica incorpora muitas outras coisas além da vida e ensinamentos de Jesus, incluindo rituais, dogmas e uma instituição de direito legal e dos homens. No seguimento disto, Valete diz: “Jesus amava de verdade / ele não fazia caridade, Jesus dava metade”. Com isto Valete quer dizer que Jesus, ao contrário do que a Igreja Católica Apostólica Romana faz hoje em dia e fez ao longo da história, não andava a dar esmolinha aos probrezinhos enquanto vivia com riquezas inegualáveis, ele partilhava o que tinha com aqueles que precisavam. E depois diz que “hoje iam chamá-lo de extremista, porque além de humanista, ele era comunista”. E claro que Jesus era comunista porque Jesus, ao longo da sua vida, nunca praticou o direito da propriedade privada. Jesus praticou sempre o princípio de “o que é meu, é teu”. E é esse o ideal subjacente ao comunismo: a inexistência de propriedade privada, apenas propriedade comum.

Cristologia, em resposta diz, “é fácil proclamar Jesus como comunista, mas ele não dava metade, ele dava tudo o que tinha”. Okay, é precisamente isso que o Valete estava a dizer quando disse que Jesus era comunista, portanto, até agora está a concordar. “Isso sim é de um ser que foi bem mais do que um humanista”. Então, foi mais do que um humanista, foi o quê? Depois “tinha uma voz delicada para fazer uma profecia, Jesus disse afirmou”… “disse afirmou”? Okay, nevermind, “que haveria pobreza, mas também afirmou desastres naturais, criados por Deus pela força da natureza”… então ele ser mais do que humanista é ele ser um profeta porque veio proclamar pobreza e desastres naturais, embora não tenha bem certeza se foram causados por Deus (intenção divina) ou pela Natureza (acaso, leis da natureza em acção). “Falas em Jesus mas não afirmas que ele foi realmente o filho de Deus”. O quê? Claro que não diz, porque o Valete não acredita em Deus. O que o Valete disse foi que as pessoas seguirem os ensinamentos da vida de Jesus é positivo porque são bons princípios, já essa história de Jesus ser filho de Deus e toda a doutrina católica e sobrenatural ele não compra, e foi precisamente por isso que ele começou o som por fazer a distinção entre Cristianismo e Catolicismo. Será que Cristologia percebeu? Bem, tendo em conta que mais à frente diz “Rastafarae, fumam cannabis para estar em nível espiritual com Jah the most high”. Ora o que quer isto dizer? Cristologia venera duas divindades? Ou Jah e Deus são o mesmo para ele? Mas como pode Cristologia ser católico se pratica rituais que divergem da igreja católica? Portanto, neste ponto da música compreendemos que na cabeça de Cristologia vai uma grande confusão de conceitos e de crenças e que ou ele não se sabe explicar, ou ele próprio não compreende aquilo em que acredita.

E é bastante conveniente que se perceba logo tão cedo na música que não há qualquer conteúdo de interesse em “Amor & Consciência” porque é um sacrifício muito grande continuar a ouvir. Durante todo o som Cristologia arrasta o flow, esganiça-se no meio dos versos, não tem uma lógica fluída e, para piorar tudo, o beat é do mais repetitivo e terrível que já ouvi. Mesmo que o conteúdo valesse a pena, qualquer música, beef ou não, tem de ter o mínimo de qualidade musical para se conseguir ouvir. E isso não ocorreu aqui.

Player vs Haka

Depois de analisar o tema anterior, qualquer som soa bem, mas de facto, o som de beef do Player - Não é equívoco, usufrui de um bom instrumental, de dicção e métrica que se entende, e algumas referências e word play engraçados. Mas depois quando chegamos à parte do beef em si, fica muito a desejar, principalmente tendo em conta que já é, em si próprio, uma resposta a uma provocação anterior. Há várias dicas generalistas "armado em Moisés, não sai da caverna", seguidas de uma das punchlines (?!?) mais estranhas que ouvi em beefs, porque diz, em tom de insulto, que o Haka é do Norte tipo o Berna e que tem voz de taberna. Não tenho bem a certeza se a comparação ao Berna era suposto ser insultuosa mesmo ou se foi só para rimar, mas em qualquer dos casos é uma comparação desastrosa, porque o Berna é um marco incontornável do rap nacional e fez um dos álbuns mais clássicos do rap tuga (“Reflexologia”); caso tenha sido só para rimar, então dizer que o Haka é tipo o Berna só pode ser um grande elogio. Quanto à voz da taberna, tenho a certeza que o Ol Dirty Bastard se ia sentir muito insultado com essa dica.

A isto seguem-se mais dicas generalistas, até chegar à rima “tem grande flow copiado, o teu flow de merda é copiado”. Mas não diz de quem. Aqui talvez seja relevante relembrar o caso lá de cima do Nerve e do X-Tense, porque ambos se acusaram um ao outro de copiar flows, mas não só disseram de quem, como o disseram de forma criativa, integrada no resto do tema e fundamentada. E depois no meio de mais rimas generalistas diz “na tua terra és odiado”, mas mais uma vez, é uma dica no ar, sem mais contextualização nem referência a motivos, pessoas ou situações, à excepção da referência de que ser traído não fez dele menos homem. Que não é genérico mas dada a contexualização (ou ausência dela), bem podia ser.

Ou seja, em conclusão: mudando as palavras “Moisés” e “Haka”, o beef até podia ser para o Jay-Z.

A resposta do Haka, felizmente, não padeceu dos mesmos problemas, embora depois de ouvir a música inicial do Player tivesse achado que não era música que merecesse resposta, simplesmente porque não há nada em concreto para responder, a não ser insulto gratuito e não fundamentado. Mas tendo optado por responder, “Not a Player” tem tudo aquilo que o som do Player não teve, ou seja, um som integrado, fazendo referência a locais e situações, desde o nome da música até ao refrão, passando pelo wordplay nas respostas. Nada de referências no ar ou “caça-fantasmas”. Conforme já disse, um beef a sério é assumido e este foi, sem margem para dúvida.

Infelizmente, a este beef falta uma contraparte capaz de escrever ao mesmo nível para o tornar interessante.

Em jeito de conclusão, resta-me dizer que a minha visão de sons de beef ainda é a mesma que a do KRS-ONE: trata-se de um desafio entre dois MCs (ou mais) em que o que está em jogo é a sua honra enquanto MC. É uma battle em que cada parte dá o seu máximo para deitar a outra por terra, recorrendo aos seus melhores skills, sabendo que se perder, perde também a credibilidade junto do seu público – e isso já aconteceu no rap tuga, embora mais em battle de improviso do que em battle de beefs. E beefs para ganhar notoriedade só funcionam se os MCs tiverem skills reais para mostrar, pois na melhor das hipóteses caem no esquecimento e na pior, nem sequer chegam a ser ouvidos. Por isso é importante pensar bem se fazer um som de beef vale mesmo a pena ou se não será melhor canalizar essa energia para o habitual som de egotrip.

Beware Jack & DJ Yoke - O Mundo é Meu

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Beware Jack & DJ Yoke
O Mundo é Meu
Abril 2011


Beware Jack é o MC, DJ Yoke o DJ e produtor. "O Mundo é Meu" é o álbum, merecedor de destaque no ano de 2011 como um dos trabalhos que me surpreendeu e satisfez quando eu menos estava à espera.

"O Mundo é Meu" é um álbum com muitos pormenores por explorar. É sem dúvida daqueles álbuns em que, de cada vez que se ouve, se descobre um novo pequeno pormenor genial, um novo sentido por detrás de uma frase que parecia não ter nada de especial. É, também, uma espécie de camaleão do hip hop como poucos álbuns conseguem ser, e isso deve-se à combinação rara de dois factores: uma voz que se dissolve no beat sem ser obscurecida por este e instrumentais tão agradáveis que fazem festinhas ao cérebro. Portanto, no fundo é o tipo de álbum que consegue agradar tanto a ouvintes que não liguem muito às letras como àqueles para quem a letra é o mais importante. Consigo contar pelos dedos de uma mão os álbuns que conseguem ser assim.

Não é fácil analisar este LP, mais não seja pelo simples facto de não me ser possível listar todos os pequenos detalhes que fazem dele um grande álbum. Cada faixa tem algo de extraordinário e, ainda assim, enganosamente simples. Por exemplo, a primeira faixa, "As Botas do Beware Jack" parece ser uma amálgama de frases escritas para rimar, sem fazer grande sentido todas juntas, como se o MC se tivesse sentado a escrever depois de uma maratona de westerns e substâncias recreativas. E nada impede o ouvinte de interpretar a música assim mesmo. Mas uma adição mais cuidada permite-nos perceber que é uma música cheia de pérolas e que pinta uma imagem que, no seu conjunto, é deslumbrante. Já para não falar do conceito da música em si.

Outras faixas presenteiam-nos com outros pormenores interessantes. Por exemplo, "Carreira a Solo" faz uma brincadeira muito interessante entre a primeira e a segunda parte da música "aprende, imprime, corta e cola / eu publicito a minha carreira a solo" versus "(...), imprimes, cortas e colas / tu publicitas a tua carreira em escolas", dando a oportunidade a Jack de contrariar essa mesma afirmação na sua sequência. O beat não é dos que mais me cativa neste álbum por ser um pouco repetitivo, mas para compensar, a voz feminina, nesta track tal como no resto do álbum, é surpreendentemente agradável e natural, ao contrário da maioria dos álbuns de hip hop.

"À Boleia" é das faixas com melhor combinação conceito + letra + instrumental + flow. É dinâmica e motivadora e tem referências geniais a séries, locais e situações. Esta faixa, tal como a maioria das tracks, usufrui de um Beware Jack à vontade no microfone, sem medo, sem demasiado autocontrolo, a simplesmente deixar a rima sair e com uma sensibilidade instrínseca para a melodia, para o tipo de flow que cada instrumental pede. É também o que se pode dizer de "M&M", com um refrão com o tipo de scratch que já tinha saudades de ouvir, aquele scratch que é tão musical que é ele próprio um instrumento; "Fumo, Penso" no seu registo mais calmo e introspectivo e refrão de total responsabilidade do DJ ("Yoke é como um bom bongo de água"); "O Livro", que conta com a participação de um dos meus MCs favoritos, Praso (não é, portanto, de surpreender que a combinação com Beware Jack resulte tão fantasticamente bem e que o beat, também de Praso, sirva aos dois); e "Lost Tape", com mais um refrão que fica no ouvido.

"O Que Faz Falta" é daquelas tracks que ponho a tocar quando ando a passear pelo meio de Lisboa, sem destino, porque tem um instrumental que se enrola à volta da voz do MC e nos faz desligar todos os pensamentos para nos focarmos exclusivamente naquilo que estamos a ouvir. O mesmo se pode dizer da "O Engôdo", cujo beat explode com a cabeça de qualquer fã de um registo mais jazz e cuja letra, para os sobreviventes, esconde dicas interessantes ("um clássico nas ruas como Florbela Espanca"; "la vida loca não é dolce vita"; "ciente na loucura de um louco"... já chega, vou deixar algumas para vocês descobrirem).

Mas Beware Jack não faz só sons de tema flexível. "A Saga do Contrabando", com a participação de D. Rubirosa e Mohad Sabre, é a prova disso. O instrumental é genial e todos os MCs escrevem o tema com uma mistura de descontracção e descrição, como se de facto fossem personagens da série "Weeds". Se prestarem atenção, a letra tem duplos sentidos de nos pôr um sorriso na cara de orelha a orelha do simples que são e de nunca ninguém se ter lembrado delas. O refrão é brutal, imagino-os mesmo numa sala cheia de fundo a curtir a moca. "Nem Bom, Nem Mau", por outro lado, é demonstrativo da capacidade de Beware se adaptar a bpms mais lentos, embora não possa dizer que o beat seja dos meus favoritos dado ser demasiado repetitivo para o meu gosto, tal como o é "O Mundo é Meu".

A última faixa, "Por Isso Falas", com Mohad Sabre e Lyht, é outra com um dos meus instrumentais favoritos, com o sample da banda sonora de Assassin's Creed. A participação de Mohad Sabre é lamentavelmente fraca, ainda por cima quando comparada com a escrita franca, envolvente e não-linear de Beware Jack.

Em forma de conclusão, posso dizer que esta é uma audição obrigatória, embora talvez não para todos. A produção de Yoke é incontestavelmente viciante mas a escrita de Beware Jack é bastante particular, seguindo uma linha de orientação não-explícita que pode não estar no leque de gostos de todos os ouvintes. No entanto, para quem estiver disposto a dar atenção e gostar de um certo desafio nas suas audições, "O Mundo É Meu" é um trabalho a não perder. Entre o flow de Beware que faz rimar parecer fácil, as rimas cheias de pormenores brilhantes e a produção firme de DJ Yoke, só tenho a lamentar ter deixado passar tanto tempo antes de colocar este álbum na minha playlist.

SOPA - E Não Só

reality ruins my life


Antes de mais, vou colocar aqui este video que explica bastante bem em que consiste a SOPA / PIPA, que está neste momento sob avaliação no Congresso americano.

PROTECT IP / SOPA Breaks The Internet from Fight for the Future on Vimeo.



Em reacção a esta nova legislação, já vi várias posições, desde totalmente contra até mais ou menos a favor. Surpreendentemente, ou talvez não, continuo a ver artistas a defender que a pirataria tem de ser proibida e que é essa a única forma de proteger os artistas e garantir que continuam a fazer música.

Compreendo a preocupação dos artistas. Compreendo que é difícil investir em equipamento e horas de estúdio e tudo mais e depois não ver retorno que pague o esforço. Mas do meu ponto de vista, isso quer apenas dizer que ainda não se descobriu um modelo de negócio que funcione de acordo com as novas tecnologias e os novos comportamentos de consumo dos ouvintes.

Mas comecemos pelo princípio. Esta tentativa de controlar o conteúdo da internet por parte das majors não é nada de novo. É algo que aconteceu de todas as vezes que a industria musical testemunhou uma evolução tecnológica. De todas as vezes, ouviu-se a ameaça que seria o fim da música.

Excertos:


  • A famous letter in 1906 claims that both the gramophone and the self-playing piano will be the end of artistry, and indeed, the end of a vivid, songful humanity.


  • In the 1920s, as broadcast radio started appearing, another copyright industry was demanding its ban because it cut into profits.


  • In the 1930s, silent movies were phased out by movies with audio tracks. Every theater had previously employed an orchestra that played music to accompany the silent movies (...) Their unions demanded guaranteed jobs for these performers in varying propositions.


  • In the 1940s, the movie industry complained that the television would be the death of movies, as movie industry profits dropped from $120 million to $31 million in five years.


  • In 1972, the copyright industry tried to ban the photocopier. This push was from book publishers and magazine publishers alike.


  • The 1970s saw the advent of the cassette tape, which is when the copyright industry really went all-out in proclaiming their entitlement. Ads saying “Home taping is killing music!” were everywhere.


  • The 1970s also saw another significant shift, where DJs and loudspeakers started taking the place of live dance music. Unions and the copyright industry went ballistic over this, and suggested a “disco fee” that would be charged at locations playing disco (recorded) music.


  • The 1980s is a special chapter with the advent of video cassette recorders. The copyright industry’s famous quote when testifying before the US Congress – where the film lobby’s highest representative said that “The VCR is to the American film producer and the American public as the Boston strangler is to the woman home alone”


  • Also in the late 1980s, we saw the complete flop of the Digital Audio Tape (DAT). A lot of this can be ascribed to the fact that the copyright industry had been allowed to put its politics into the design: the cassette, although technically superior to the analog Compact Cassette, was so deliberately unusable for copying music that people rejected it flat outright.



Portanto, esta obsessão em travar por meios legais qualquer mecanismo que resulte na diminuição das receitas da industria já tem muitos anos. Mas a verdade é que a música e a escrita existem à séculos - muito antes da lei da propriedade intelectual de 1922 - simplesmente não estavam ao alcance das massas. E é isso que a indústria quer - ter o monopólio para tornar a música e a escrita algo raro para poderem cobrar preços elevados e ter muito lucro.

O que eu acho incrível é que ainda há muitos artistas que acreditam neste esquema. Acreditam que se houver meios de prevenir a cópia privada, que conseguem ter lucros. Mas as coisas não funcionam assim.

Qualquer lei de censura à internet para prevenção da pirataria tem de seguir o mesmo tipo de lei que existe fora da internet. E isso implica que eu não posso enviar um mp3 ou um link do youtube a um amigo meu para ouvir este novo mc que lançou uma mixtape há pouco tempo. Significa que 60% dos beats de rap têm de deixar de ser usados porque têm samples ilegais. E nem sonhar com covers ou remixes. As festas de Hip Hop vão ser uma seca porque os DJs não podem sacar nada de novo da net - e o processo de licenciamento leva o seu tempo. Boa sorte a enviar a programação mensal de festas para a SPA, by the way.

O Hip Hop, tal como existe hoje, seria totalmente eliminado. Somos uma cultura enraizada em cópia ilegal, não há mais nada a dizer! Até os artistas que defendem o fim dos downloads ilegais admitem que se fartam de piratear música. E é claro que sim! Eu própria comecei a ouvir rap sacando sons da internet. Se não fosse isso, provavelmente hoje em dia não ligava puto ao rap - eu na altura nem sabia onde é que se compravam cds de rap.

Por outro lado, comprei um Kindle há quase um ano. Sabem quantos livros comprei à Amazon (fabricante do Kindle)? Zero. Sabem quantos livros li? Mais de 40. E sabem quantos foram pirateados? Três. Basicamente, o que eu fiz foi comprar mais de três dezenas de e-books a editoras independentes, e-books que nem sequer existem em edição física porque nem os autores nem as editoras têm capacidade monetária para os distribuir. E-books que só existem porque os autores não têm que financiar parte do livro para conseguir lançar. E-books que existem porque estas editoras independentes não lhes exigem que eles sejam escritores a full time. Nem sequer os editores trabalham como editores a full time.

Se a indústria dos livros se tem vindo a safar e a inovar, descobrindo nichos de mercado e funcionando com as regras de mercado, porque é que a música não o faz? Vejo tantos artistas a queixarem-se, mas a maioria deles nem sequer tem sites com NIBs ou Paypal ou Bandcamp com a opção de comprar. Não vejo apelos nos seus sites aos ouvintes para ajudarem a cobrir os custos de edição do álbum. Não vejo esquemas de financiamento - por exemplo, pedir ao público para financiar o próximo álbum através de donativos. Não vejo o rap a unir-se para criar uma plataforma única de edição de música, tal como vejo as editoras de e-books fazerem para os seus nichos de mercado.

Não é a cópia privada que tem de ser impedida, é a aquisição legal que tem de ser tornada fácil, acessível e apelativa. Acima de tudo, os artistas têm que se lembrar que downloads não equivalem a compras. Downloads equivalem a divulgação em massa, divulgação essa que de outra forma não existiria. Não se iludam. Não sejam como o Calvin ali no meu icone. Em vez de se queixarem que a realidade vos estraga a vida, mudem a realidade, inovem, criem algo que as pessoas queiram comprar.

Os artistas queixam-se muito para quem ainda vai vendendo uns cds. Eu cá escrevo um blog há 8 anos e ainda não vi um tostão. Aliás, deixem-me recordar-vos que todos os meios de divulgação especializados em Hip Hop, em Portugal, são totalmente não remunerados. Volta e meia roubam-nos textos, publicam-nos noutros sites sem referir a fonte, usam coisas fora do contexto, etc. Mas é por isso que vamos deixar de fazer o que fazemos? Claro que não. Tal como a música, mesmo que chegue ao extremo de ser totalmente não remunerada, nunca vai deixar de existir.

Destaques de 2011

needz decaf
Sim, já vamos a meio do Janeiro, eu sei. Mas depois de tanto tempo sem escrever aqui, recuperar o ritmo não é fácil.

Alguns sites fazem tops, outros fazem listas. Eu nunca quis fazer tops porque simplesmente não consigo ver a música como algo hierarquizável. Certamente que gosto mais de uns do que outros, mas dentro do universo de álbuns de que gosto, não sou capaz de dizer "gosto mais deste porque tem um wordplay melhor" quando mesmo ao lado está um álbum com instrumentais tão expressivos como qualquer letra.

Assim sendo, vou optar pela lista.

Importa sublinhar desde já que não ouvi todas as edições de 2011, nem nacionais, nem internacionais. Se calhar há por aí mixtapes, álbuns, EPs e muito mais que se eu tivesse ouvido incluia nesta lista. Da mesma forma, há muitos trabalhos que eu ouvi que não incluí nesta lista, mas isso não quer dizer que não tenha gostado de os ouvir. Simplesmente os trabalhos que escolhi colocar aqui foram trabalhos que me marcaram por qualquer motivo, o que é, no fim de contas, um critério absolutamente pessoal.

Já agora, tendo em conta o lag com que ouço as coisas, se houver algo aqui que não é de 2011, não se espantem.

Vamos então aos destaques.

Halloween - Árvore Kriminal


Não sei se haverá muito a dizer sobre este álbum que não seja "stating the obvious". Halloween voltou com as arestas mais limadas, com qualidade de som uns quantos níveis acima mas o mesmo tipo de sonoridade que faz parecer que "Árvore Kriminal" foi arrastado por valas e esgotos antes de ser editado. Em 2007, escrevi que "com o estúdio certo, os produtores certos e uma masterização decente, Halloween era o maior,[mas] por outro lado há quem argumente e com razão, que nessas condições Halloween deixaria de ser Halloween." Ora aqui está a prova de que, com o estúdio certo, os produtores certos e uma masterização decente, Halloween não deixou de ser Halloween. Bem pelo contrário.


Metamórfiko - Crushing Clouds / Butter Files


Antes de mais, sim, são dois trabalhos separados. Mas penso que ambos merecem ser destacados na área da produção, principalmente por serem trabalhos de produção muito completos e variados a nível de sonoridade. Quem costuma ler o meu blog sabe que tenho preferência por produtores que usem muitos samples e que façam misturas e experiências, mais estilo Edan, Blockhead, Cut Chemist e Exile e menos estilo 9th Wonder e Alchemist (quando a solo). E é precisamente no estilo dos primeiros que Metamófiko se encaixa, da minha perspectiva de ouvinte. Não podia deixar passar.

Kilu - Motivo


Tenho de confessar que estava ao mesmo tempo muito ansiosa e muito receosa por este álbum. O "Um Outro Lado da Versão" é um dos meus álbuns tugas favoritos de sempre e ainda hoje o ouço sem espinhas. Mas a verdade é que já foi lançado em 2002 e a minha experiência é que se um artista deixa passar muito tempo até lançar um novo trabalho, este acaba por se "actualizar" e as minhas expectativas acabam no galheiro. Mas não aconteceu nada disso neste álbum. "Motivo" foi tudo aquilo que eu estava à espera and then some. Não vou dizer mais nada porque ainda quero fazer uma review deste álbum como deve ser.

Sarcasmo - Noites Calmas, Dias Felizes


O primeiro álbum desta lista do qual já fiz review, embora gostasse de fazer uma em português aqui para o blog a explorar alguns pormenores que não pude explorar numa review para quem não entende as rimas. Dou destaque a este álbum pelo motivo oposto ao álbum anterior: por não ser nada do que estava à espera. Por me ter surpreendido quando já não tinha esperança de ficar verdadeiramente viciada num trabalho de um mc que não conhecesse já. Mais não digo, fica para essa tal futura review. Mas posso dizer que foi o álbum que mais rodou no meu pc/mp3.

Prodigo & Viruz - Dentes de Ouro & Flow de Platina


O "100 insultos" é um álbum que considero como um clássico do rap tuga. Há algo no VRZ naquele álbum que parece fazer dele uma metralhadora de rimas que põe o dedo em todas as feridas-- ao mesmo tempo! Já o Pródigo popularizou o tipo de rap com expressões e termos invulgares ou menos usuais, o que ficou consolidado no "Onde é Que Está as Mortalhas". É esse o motivo pelo qual ouço qualquer trabalho do Pródigo e VRZ com muita atenção e expectativa. Este trabalho tem alguns pormenores que considero simplesmente fantásticos, e é por isso que o incluo nesta lista.


Stray - O Diabo


O segundo álbum desta lista que já tem review feita. Este álbum merece destaque pelo facto de ter sido o álbum de Stray de que mais gostei até hoje, pela combinação de letras e instrumentais. Embora tenha gostado também de Monstro Robot e outras aventuras, este álbum está qualquer coisa de possuído (pun intended). Só a primeira música, Akuma, fazia o CD sozinha, mas todas as músicas se conjugam para fazer um excelente álbum.

Beware Jack & DJ Yoke - O Mundo é Meu


Este é um álbum que descobri bem depois de ser lançado, devido ao síndrome "nunca ouvi falar, é porque não é nada de jeito". Fiquei contente de estar errada e de ter gostado muito de o ouvir. Tem os mesmos pontos fortes que um álbum do género do Kilu - instrumentais muito bons (ahaha a última faixa samplada de Assassin's Creed, ah poizé) e letras muito bem integradas na música no seu conjunto. Uma surpresa agradável.

Compilação No karma


Eu quase nunca gosto de compilações. E quando gosto, é porque têm uma ou duas músicas de que me chamam à atenção. Daí que tenha ficado muito surpreendida de ter gostado desta praticamente na totalidade das músicas. E mesmo as que não me fascinam tanto, consigo ouvir sem as saltar. Penso que esta compilação é verdadeiramente representativa do que a editora que pretende apresentar consegue fazer e tem vários sons verdadeiramente arrebatadores, incluindo os instrumentais (que normalmente são só para encher).


Muito ficou por ouvir neste ano de 2011, mas este são álbuns que sem dúvida merecem ser referidos, ainda que sem nenhuma ordem em particular.

Dan Bull appreciation post

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Dan Bull foi o primeiro artista a quem comprei um álbum gratuito - foi o artista que me inspirou a ver a verdade por detrás do circo mediático que se tornou a propriedade intelectual.

O kick-off foi dado por esta música, que ele dedicou à Lily Allen (e que está simplesmente genial):


Mas entretanto comecei a descobrir outras músicas, como esta dedicada ao papa:



Ou esta, dedicada à Microsoft:



Ou ainda esta:



Se é possível fazer paródia, ele faz:



Mas se é preciso falar a sério, também fala:



E diz o que tem a dizer sobre assuntos da actualidade:



É sem dúvida dos artistas mais criativos que eu tive o prazer de ouvir, além do que nunca se demitiu do (nem se deixou limitar pelo) seu papel interventivo. Para mim, representa o futuro da liberdade criativa de uma maneira que poucos artistas ousam.

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Continua a minha cruzada contra os direitos de propriedade intelectual, um tipo de lei que finge defender os autores de trabalhos artísticos mas que serve apenas para alimentar a máquina das grandes multinacionais.

Para efeitos de arquivo, aqui ficam dois artigos que é essencial ler:

The Copyright Industry – A Century Of Deceit

e

RIAA Accounting: Why Even Major Label Musicians Rarely Make Money From Album Sales

O primeiro artigo é uma resenha histórica da quantidade de outras evoluções tecnológicas que surgiram no mundo da música e das sucessivas tentativas de impedir esse progresso por simples impulso de rent-seeking por parte das editoras. Estes progressos incluem o gramofone, a rádio, filmes com som, a televisão, as cassetes, etc até aos dias de hoje. Põe as coisas em perspectiva.

O segundo artigo é um pouco mais de números. Da mesma forma que, contabilisticamente, todos os blockbusters de Hollywood têm prejuízo, independentemente de quantos bilhetes vendam, as editoras major fazem questão de montar um sistema semelhante. E quem se lixa no meio disso tudo? Claro: a banda.

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Sarcasmo - Noites Calmas, Dias Felizes

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HIPHOPulsação - Homens com dois H's

BRS


Aí está o presente de Natal que o pessoal do rap sempre quis receber. Da autoria de Druco e Sempei, autores do blog HIPHOPulsação e membros integrantes do colectivo Bloggers Reign Supreme, chega-nos um livro recheados dos seus melhores textos - Homens com Dois H's. A capa é da autoria do Fisko.

Pôr uma coisinha destas cá fora é tudo menos fácil - eu ainda não descobri coragem para tentar uma coisa destas - por isso toca a mostrar apreciação pelo esforço dos dudes! Não é só lançar álbuns que dá trabalho, estas coisas também.

E parabéns à dupla por fazerem este projecto ver a luz do dia :)
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Leituras recomendadas

cant hear you over how awesome i am
Não tendo tempo para escrever, tenho pelo menos tempo para recomendar coisas que os outros escrevem!

Occupy Hip Hop: The Dilemma Of The Rap Music Mogul, @ HHDX por Salima Koroma.

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Ary - Duro de Roer

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